terça-feira, 29 de abril de 2014

Turcos gays passam por humilhação para escapar do Exército

O serviço militar é obrigatório na Turquia para homens com mais de 20 anos, mas é possível escapar caso eles apresentem provas de algum tipo de doença, deficiência ou provem que são homossexuais. No entanto, para provar a homossexualidade é preciso passar por uma situação humilhante. "Eles me perguntaram quando tive a primeira relação anal, (se pratico) sexo oral e com que tipo de brinquedos eu brincava quando era criança", disse Ahmet, um jovem de cerca de 20 anos.

Na primeira oportunidade depois que foi convocado, durante os exames de saúde, Ahmet disse aos militares que era gay. "Eles me perguntaram se eu gostava de futebol, se eu usava roupas ou perfume de mulheres", disse. "Eu estava com a barba por fazer há alguns dias e sou um gay mais masculino. Eles me falaram que eu não parecia um homem gay normal." Os militares pediram que Ahmet fornecesse uma foto em que aparecesse vestido de mulher. "Recusei este pedido. Mas fiz outra oferta, que eles aceitaram", disse o jovem que deu aos militares uma foto dele beijando outro homem. Ahmet espera que esta foto garanta o fornecimento do chamado "certificado rosa": este documento declara que um homem é homossexual e, por isso, isento do serviço militar. Nos últimos anos, os homossexuais ganharam mais visibilidade na cidades maiores da Turquia.

Cafés e casas noturnas com clientes abertamente gays foram inauguradas em Istambul e, no ano passado, ocorreu uma parada do orgulho gay, algo único no mundo muçulmano. Mas, apesar de não haver leis específicas contra os homossexuais na Turquia, gays assumidos não são bem-vindos no Exército. E, ao mesmo tempo, eles precisam "provar" que são homossexuais para evitar o serviço militar. Gokhan, convocado no final da década de 1990, percebeu rapidamente que ele não tinha vocação para permanecer no Exército. "Tinha medo de armas", disse. E sendo gay, ele também temia sofrer bullying. Depois de um pouco mais de uma semana, ele declarou sua orientação sexual ao comandante. "Eles me perguntaram se eu tinha alguma fotografia. E eu tinha", afirmou Gokham. Ele tinha se preparado com fotos explícitas que mostravam ele mantendo relações sexuais com outro homem. Isto foi necessário pois Gokham tinha ouvido que seria impossível sair do serviço militar sem as fotos. "O rosto deve estar visível. E as fotos devem mostrar você como o passivo", disse.

Os militares aceitaram a foto, Gokham recebeu o certificado rosa e foi isento do serviço militar. Mas ele lembra que a experiência foi terrível. "E ainda é terrível. Pois alguém fica com estas fotografias. Eles podem mostrá-las no meu vilarejo, para os meus pais, meus familiares." Homossexuais da Turquia afirmam que a natureza das provas exigidas depende da vontade do médico militar ou do comandante. Em algumas vezes, em vez de fotografias, os médicos fazem um "teste de personalidade". O Exército turco recusou os pedidos de entrevista da BBC, mas um general aposentado, Amagan Kuloglu, aceitou comentar estas regras. Segundo o general, gays assumidos no Exército causariam "problemas disciplinares" e seria pouco prático criar "instalações separadas, dormitórios separados, chuveiros, áreas de treinamento".

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