sábado, 8 de janeiro de 2011

Em 'Passione', Silvio de Abreu perde o rumo da trama

Geraldo Bessa/Terra

Em seus momentos finais, Passione, da Globo, revela-se uma tentativa de Silvio de Abreu de integrar dois gêneros que ele já mostrou conhecer muito bem: a comédia e o suspense. O sucesso de suas novelas cômicas nos anos 80, como Guerra dos Sexos, de 1983, e Cambalacho, exibida em 1986, serviram para lhe garantir um lugar de destaque entre os autores globais. Silvio se sentia muito confortável com o êxito de suas tramas às sete da noite. Tanto que relutou em ir para o horário mais nobre da emissora. Depois de muita insistência, decidiu aceitar o "upgrade", mas com a condição de que, antes da mudança, pudesse experimentar um novo formato. Por isso, em 1990, Silvio assinou a minissérie Boca do Lixo, trabalho onde pôde deixar de lado o humor rasgado e apostar em uma trama séria e de impacto. Essa incursão pelo suspense policial foi retomada de vez com a engenhosa novela A Próxima Vítima, de 1995.
Se em meados dos anos 90, o país inteiro se perguntava quem era o "serial killer" do Opala preto, atualmente, a curiosidade para saber quem é o assassino de Saulo, de Werner Schüneman, não causa comoção alguma. Pela sinopse de Passione, a intenção de Silvio era surpreender com os mistérios da família Gouveia e fazer rir com as histórias do núcleo capitaneado por Clô e Olavo, de Irene Ravache e Francisco Cuoco. A porção de humor rendeu frutos e repercussão. O triângulo amoroso protagonizado por Jéssica, Berilo e Agostina, papéis de Gabriela Duarte, Bruno Gagliasso e Leandra Leal, foi um dos grandes acertos do folhetim ao mostrar assuntos como traição e bigamia com leveza e humor. Não deu outra: os três terminam a novela como destaques, principalmente Gabriela, outrora lembrada pelos personagens chorosos. A atriz apostou nos exageros de Jéssica e, mesmo alguns tons acima, conseguiu torná-la crível e divertida.
Enquanto o núcleo cômico se mostrava interessante, Bete Gouveia, de Fernanda Montenegro, descobria falcatruas em sua empresa e acumulava problemas famíliares. Saulo, o filho mais velho, era raivoso e angustiado, Gerson, de Marcelo Antony, não saía do divã de seu psiquiatra e Melina, de Mayana Moura, sofria pelo amor não correspondido de Mauro, personagem de Rodrigo Lombardi. Até a vinda dos italianos para o Brasil, nada de muito interessante acontecia na mansão dos Gouveia. Com os estrangeiros, vieram as coincidências familiares. A impressão é de que nesta novela qualquer questão poderia ser resolvida com o surgimento de um parentesco entre os personagens. O autor unificou as tramas principais e secundárias. Por semanas, o mistério que envolvia todos os núcleos era em relação à árvore genealógica. Por fim, o autor sinalizou que poderia ter algo de realmente instigante com o segredo envolvendo o personagem de Marcelo Antony. Na trama, este segredo foi o responsável pelo fim de seu casamento com Diana, a desenxabida mocinha de Carolina Dieckmann, e por várias cenas carregadas de culpa e revolta. Não existia patologia. Gerson apenas gosta de pornografia virtual. Atualmente, a morte de Totó, de Tony Ramos, tem dado agilidade aos capítulos. Tanto é que a grande questão para quem acompanha a trama é se o italiano está vivo ou morto. A morte de Saulo, que se encaminhava para ser o principal mistério de Passione, se perdeu em meio às confusões familiares e aos crimes menores do folhetim, como a do advogado Noronha, de Rodrigo dos Santos, e da secretária Myrna, de Kate Lyra.

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