Deolinda Vilhena/Terra
De Salvador (BA)
De Salvador (BA)
Uma cantora que canta(Fotos: Lívio Campos/Divulgação)
Vira e mexe esqueço que devo escrever sobre teatro e surpreendo meus leitores - 17, porém fiéis - fugindo do tema. A coluna de hoje não vai falar de teatro, pedi licença aos deuses do teatro, mas esqueci de prevenir o Bob Fernandes - nosso editor - para fazer uma declaração a uma das deusas da música: Nana Caymmi. Na minha opinião - que dou não como boa, mas como minha, em discípula de Montaigne - a maior cantora do Brasil. Quem tiver ouvido obsoleto que me desculpe, mas quando Nana canta até os deuses do Olimpo descem para escutá-la, como diz meu amigo Gabriel Federicci.
Daqui a pouco mais de três meses, mais precisamente no dia 29 de abril, Nana completa 70 anos. Gostaria - pretensiosa que sou - que essa coluna de hoje funcione como um lembrete aos responsáveis pela cultura desse país. Vamos comemorar gente. Vamos prestar todas as homenagens, abrir todas as garrafas de Veuve Clicquot - ela merece mesmo é Dom Perignon - pois nos dias de hoje, onde qualquer um diz que canta, e o pior é que muitos acreditam, é bom demais poder festejar e homenagear alguém cuja voz é puro brilhante, instrumento poderoso, principalmente quando bem usado. Sem falar no repertório, quantos cantores mundo afora têm um repertório com a qualidade do escolhido a dedo por Nana Caymmi?
Deixo uma sugestão para a nova ministra da Cultura, Ana de Hollanda, cujas origens me fazem acreditar na sua capacidade de escuta: esqueça a lei Rouanet, os editais, a burocracia, decrete por livre e espontânea vontade, por puro voluntarismo político, 2011 o Ano Nana Caymmi da Música Brasileira.
Como? Oferecendo um show da cantora em praça pública em pelo menos 70 cidades brasileiras, uma para cada ano de vida de Nana. Não poderia haver maior presente para quem, tal e qual um sabiá, cantar é um ato natural, de amor...Tenho certeza de que seria um sucesso. Acostumado a pão e circo, o povão iria adorar comer brioche uma vez na vida. Os três shows que Nana fez em Sampa, no SESC Vila Mariana, na semana passada, com casa lotada e gente voltando da porta, desmentem a fama de que ela é uma cantora elitista. Como diria Antoine Vitez falando de teatro, teatro popular é o teatro elitista para todos. Acredito que a fórmula de Vitez funcione também para a música. Na platéia do SESC Vila Mariana, ao lado de Maria Adelaide Amaral, Dib Carneiro Neto e Luiz Carlos Merten - integrantes da elite cultural formadora de opinião desse país, estava um público simples, mas de bom gosto, porque não é preciso ter ouvido absoluto para entender que Nana canta como ninguém. Basta ser capaz de ouvir.
Um franco-suíço mais antenado que muito brasileiro
Filme e disco na festa dos 70 anos de vida (Fotos: Divulgação)
Oscilando entre momentos emocionantes - as cenas de canto de D. Diva são literalmente de cortar os pulsos - e divertidos, graças as tiradas de Nana, conhecida por suas frases cujo poder de destruição as vítimas podem falar melhor do que eu. Nana é o oposto do politicamente correto, não poupa nada e ninguém das suas críticas ferinas, nem mesmo o Rio de Janeiro, sua cidade natal e pela qual é uma eterna apaixonada, e solta língua: "O Rio de Janeiro está desse jeito aí que vocês estão vendo. Eu posso falar mal do Rio, sou carioca do Grajaú, aquilo é a faixa de Gaza". Alfineta os tropicalistas, mesmo tendo sido casada com um: "Não sou cantora de movimentos. Não achei graça no Tropicalismo. E não o entendi até hoje". Num outro take dispara "Gente, eu me adoro cantando...", em meio a um jogo de cartas com amigos. E é verdade, Nana é um dos raros artistas - entre os vários que a vida me deu a ocasião de conhecer - que gosta de se ouvir. Sem falar, claro, nos que fazem fita esperando elogios...
Não vejo a hora do filme ser lançado em circuito comercial mas espero mesmo é que saia em DVD, só assim poderei ver e rever quando quiser as delícias ditas por Nana, pois nada melhor do que ouvi-la soltar o verbo e disparar sua metralhadora giratória. Nem Dori consegue superá-la e olha que ele é forte nesse esporte. Felizmente, "Rio sonata" não deve ser o único presente. Nana me falou da possibilidade de um DVD - por enquanto só há um registro do show dela com os irmãos, Dori e Danilo, quando das comemorações dos 90 anos do "seu" Dorival - a ser feito ao vivo em show idealizado por Zé Milton. Mas, a cereja sobre o bolo deve ser uma caixa a ser lançada pela EMI com discos gravados na extinta Odeon, nela discos como Nana Caymmi, Mudança dos Ventos, ...E a Gente Nem Deu Nome, Voz e Suor, Chora Brasileira, Nana, Só Louco, Bolero, A Noite do meu Bem - As Canções de Dolores Duran, Alma Serena, No Coração do Rio, Resposta ao Tempo e Sangre de mi Alma. Desnecessário dizer que tenho todos, alguns ainda em vinil e muitos dos quais me foram presenteados por elazinha em pessoa...já estou na lista de espera e se abrirem pré-venda me inscrevo no ato...
Sempre quis casar com um Caymmi...
Nós em março de 2008 e janeiro de 2011 (Fotos: Denise Caymmi)
Stella, Denise e João Gilberto - filhos de Nana -são como irmãos para mim...Marina e Carolina, filhas de Denise, são minhas sobrinhas queridas...D. Stella quando falava comigo pedia que eu intercedesse e acalmasse o gênio da filha...ilusão, Nana é como furacão pobre de quem passar perto do olho do dito cujo... Tenho mil e muitas histórias vividas ao lado de Nana ao longo desses trinta anos, estava com ela no dia do acidente de João Gilberto no dia 16 de dezembro de 1989, assim como estive com ela nos meses que João passou na Clínica São Vicente, estava com ela quando do encantamento de "seu" Dorival e "dona" Stella, mas estive também nas festas surpresas de aniversário pra mim, na casa da Denise no Jardim Botânico ou no Teatro Rival, nos muitos camarins das casas e teatros pelos quais ela cantou, feri muito meu joelho me jogando aos seus pés num dos meus números preferidos durante a juventude, sei que faço parte de um círculo restrito pois poucos são os que atravessam a porta do ap do Alto Leblon...assim como sei que poucas pessoas no mundo podem fazer o que faço, com certa freqüência, e que fiz em Paris numa noite de outono com cara de inverno, mês passado...
Após as aulas em Paris Dauphine, no âmbito do programa Courants du Monde - estágio na área de economia e financiamento da cultura - fui jantar em companhia de duas novas amigas Eliane Costa, Gerente de Patrocínios da Petrobras e Eva Doris Rosental, Superintendente de Artes da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro. Escolhemos um restaurante mega, hiper simpático na Île de Saint Louis, berço da capital francesa, e depois de um bom vinho tinto nacional acompanhando um foie grãs delicioso, entre otras cositas mais fomos bater perna pelas ruas da ilha antes de voltar para o hotel. De repente estávamos na porta de Notre Dame de Paris...comentamos a excepcional situação que vivíamos - estávamos as três em Paris convidadas pelo Ministério da Cultura francês - foi quando disse que a situação poderia ficar ainda melhor...as meninas duvidaram e não entenderam muito...peguei meu celular e liguei para o Brasil, mais precisamente para a Nana...ela atendeu. Disse que estava na porta de Notre Dame com duas amigas e que para tornar nossa noite parisiense mais bonita era preciso que ela cantasse algo só para nós - via satélite. Nana não se fez de rogada e mandou um Só louco de arrepiar...Até hoje me arrepio ao me lembrar desses dois minutos de magia...coisa de amiga, coisa de irmã...Vira e mexe ela me surpreende com um carinho especial, como na tarde/noite de domingo passado no SESC Vila Mariana quando, antes de cantar Resposta ao tempo, bela parceria de Aldir Blanc e Cristovão Bastos, dedicou-me a canção...e eu nem merecia, pois havia prometido chegar de Paris direto para o show e não pude cumprir o prometido. Disse ia assistir aos três dias de concerto e só consegui chegar para o último...e ao chegar fui presenteada com os ingressos que me haviam sido reservados para sexta e sábado...morri de vergonha!
E ao final do espetáculo me odiei por não ter assistido as duas outras apresentações...Nana arrebentou...como disse o Merten em seu blog no Estadão ele estava no "nirvana" após o show...alguém gritou da platéia: absoluta! Ao que Nana respondeu: absoluta é nome de vodka, vou acabar mudando de copo, no dela tinha um bom whisky...Filmei um minuto e meio de sua interpretação de Sorri, versão de João de Barro para o Smile de Charles Chaplin, dividi com meus amigos no Facebook, e enviei para Aurélia Chaplin Thiérrée, neta de Chaplin...recebi há pouco sua mensagem de agradecimento comovida...Nana cantou como nunca no domingo. Parece que em fevereiro ela vai repetir a dose no SESC Pompéia...tô cruzando os dedos e dessa vez nada me impedirá de bater ponto por lá todos os dias...
O pseudo-show das pequenas autoridades
Final do show no SESC Vila Mariana (Fotos: Deolinda Vilhena)
Nada me diverte - e irrita! - mais do que observar as pequenas autoridades. Pessoas que vieram do nada e para o nada caminham, tendo como prazer apenas aporrinhar a vida alheia. São pessoas doentes e presentes nas mais diversas áreas. Pois uma dessas pequenas autoridades decretou que no SESC Vila Mariana os convidados e amigos do artista - o público, nem pensar - não têm acesso aos camarins. O artista é obrigado a descer para conversar ou confraternizar com seus amigos e com seu público.
Em mais de 30 anos de teatro e showbusiness aprendi que uma única pessoa pode impedir o acesso aos camarins: o próprio artista. Ora, Nana com um problema nos joelhos, preferia receber as pessoas - éramos apenas três - em seu camarim, confortavelmente instalada após um espetáculo no qual havia despendido uma enorme energia. Nada mais normal. Menos para os boçais que deram a tal ordem, um dos quais, disse textualmente: dessa porta ninguém passa. Guto Burgos, empresário de Nana, a quem pedi socorro, veio gentilmente tentar contornar a situação, e quando viu a presença de Maria Adelaide correu para pedir ajuda a alguém da própria casa...depois de um bom tempo de espera Maria Adelaide desistiu. Saiu chateada, disse-me que era a primeira vez que isso acontecia com ela. Tentei amenizar a situação, mas, não pude me impedir de fazer a crítica ao sistema e disse: "bem-vinda ao lado colônia de férias do leste europeu do SESC". Meus companheiros foram embora. Vencidos e chocados pelo poder das pequenas autoridades.
Desnecessário dizer que Nana, quem a conhece imagina o que ela disse, ficou passada com o ocorrido. Adoraria ter se encontrado com Maria Adelaide, Nana é noveleira e sabe tudo de novela, e tem uma profunda admiração pela mais brasileira das autoras portuguesas...mas o encontro precisou ser adiado. Meu consolo é saber que a vida se encarregará de colocar essas duas verdadeiras autoridades cara a cara mais dia, menos dia; enquanto o imbecil que adiou o encontro vai continuar a brincar de exercer o poder máximo que lhe foi concedido pela vida. Quanto a mim, osso duro de roer, bati o pé e graças ao Guto, veio uma criatura - acho que se chama Gisele - que ficou chateada com o ocorrido e se prontificou a me acompanhar até o camarim onde estava a minha Diva-Deusa-Amiga.
Provei que por aquela porta alguém passaria, não só passei pela porta inacessível do SESC como jantei com a Diva e a ouvi cantar até meia noite num discreto show prive em casa de amigos - Ruy e Riva - em pleno Largo do Arouche. Isso é poder de grande autoridade.
Deolinda Vilhena é jornalista, produtora, Doutora em Estudos Teatrais pela Sorbonne e professora conferencista do Departamento de Artes Cênicas da ECA/USP.
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