domingo, 27 de março de 2011

Do terrorismo ao erotismo: do que tratam as revistas árabes femininas

O conservadorismo religioso da mais nova publicação da Al Qaeda se confronta com as questões libertárias e até sexuais abordadas por uma poeta feminista

Cecília Araújo/VEJA
  Muitas mulheres árabes sofrem com a falta de liberdade de uma cultura extremamente baseada na religião (Getty Images)
De um lado, a foto de uma muçulmana coberta com véu divide espaço com o cano de uma metralhadora. De outro, parte de um corpo feminino nu e repleto de tatuagens preenche toda a página. As duas imagens são capas de revistas femininas árabes, a primeira, lançada recentemente pelo grupo terrorista muçulmano Al Qaeda; a segunda, editada há mais de dois anos pela libertária poeta libanesa Joumana Haddad. Elas são exemplos de dois extremos existentes em uma cultura predominantemente conservadora e religiosa, mas que eventualmente se depara com reivindicações contra a submissão e as diferenças de direitos entre os sexos.
Arte VEJA / Luciana Martins


Mulheres, empunhem suas armas!
A revista feminina recentemente lançada pela Al Qaeda - Al-Shamikha (Mulher majestosa, em português) - mistura orientações de beleza com lições sobre a jihad (guerra santa). Ao mesmo tempo em que dá dicas sobre como manter a pele saudável, traz entrevistas com viúvas de “mártires” que morreram pelo Islã. “É uma tentativa de tornar a cultura jihadista atraente e encorajar novos ataques suicidas. O que a Al Qaeda deseja é recrutar também mulheres para as atividades terroristas, já que elas têm mais chance de fugir das consequências, como escapar do escrutínio e da detenção pelas forças antiterroristas. É certamente uma nova ameaça ao Ocidente”, opina Robert Spencer, estudioso em história islâmica, teologia e direito e diretor do site Jihad Watch. O objetivo maior é, então, educar as mulheres e envolvê-las na guerra contra os inimigos dos radicais.Quanto às instruções de beleza, elas se assemelham às das incontáveis revistas femininas ocidentais: “use máscaras de mel com cuidado”, “não passe a toalha muito fortemente no rosto”, “vista o véu islâmico para proteger a pele do sol”. Também na mesma coluna, os editores sugerem que as mulheres fiquem dentro de casa todo o tempo, saindo apenas em casos de extrema necessidade, ainda assim com os rostos cobertos, para manter a “boa aparência”. Fazem parte da pauta da Al-Shamikha temas como etiqueta e primeiros socorros. Não é à toa que a revista foi apelidada de Jihad Cosmo: uma versão jihadista da Cosmopolitan ocidental.
Essas dicas tradicionais, porém, são seguidas de outras um tanto peculiares. Às leitoras é dito para que eduquem suas crianças com o objetivo de serem no futuro combatentes da jihad, além de, é claro, se casarem com seguidores dos mesmos ideais. “Através do martírio, os fiéis ganham segurança e felicidade”, diz o editorial da primeira edição, lançada em meados de março. O texto explica o porquê da atenção dada ao público feminino: “As mulheres constituem cerca de metade da população - e há quem diga que são a própria população, já que dão à luz as gerações seguintes”. Segundo o editorial, os inimigos do Islã temem, por isso, o fato de as mulheres se envolverem com o mundo jihadista. “A nação islâmica precisa que as mulheres saibam a verdade sobre seu papel na sociedade, sua religião e sobre a guerra, além do que é esperado delas”, continua o texto. O lançamento da Al-Shamikha ocorre nove meses após o de outra revista - masculina, por sua vez - que também incita atos terroristas. Inspire, escrita em inglês com o objetivo de alcançar jovens muçulmanos ocidentais, desbravou o caminho. “A decisão de lançar essa nova revista feminina mostra que Inspire foi um sucesso. É inegável que os jovens islâmicos são os mais ligados às atividades terroristas”, diz Spencer. A Al-Shamikha é distribuída na internet pela mesma rede da Al Qaeda que divulga a Inspire - cujo editor, escondido no Iêmen, seria um americano que se tornou militante do grupo terrorista, Samir Khan. A segurança dos EUA se diz preocupada com as ambições da Al Qaeda ao publicar essas revistas, evidentemente com o objetivo de recrutar mais seguidores no mundo todo.
Divulgação
A libanesa Joumana Haddad já recebeu ameaças de morte por conta da ousadia de sua revista

Elas também falam de sexo
No caminho oposto, há uma série de revistas no mundo árabe que defendem a emancipação da mulher, sendo ela muçulmana ou não. No Líbano, a publicação Jasad (Corpo, em português) supera qualquer outra, pois chega a abordar tabus e trazer conteúdos eróticos e sexuais, rompendo com o estereótipo da mulher árabe. Sua editora, Joumana Haddad, nascida em Beirute, é uma das mais engajadas representantes da luta pela liberdade feminina no Oriente Médio. Joumana também edita o principal jornal libanês, o An-Nahar, já publicou livros do Marquês de Sade e da neo-libertina francesa Catherine Millet em árabe e se transformou em uma poeta premiada. Agora, está lançando um novo livro no Brasil, que trata também das questões femininas e árabes: Eu Matei Sherazade (Editora Record, tradução de Dinah Azevedo, 144 páginas, 29,90 reais). A revista Jasad aborda temas como sexo, poligamia e casamento forçado, o que rendeu à editora tanto admiração quanto censura e ameaças de morte. Seu maior público está no Líbano, único país árabe onde se pode comprar a revista nas bancas e livrarias - há censores nos outros países. Mas há também assinantes que recebem a revista em suas casas no norte da África e árabes que vivem na Europa e nos Estados Unidos, ou ainda ocidentais que estão aprendendo a língua. “Pelas cartas que recebo, posso ver que o público é bastante variado, de todas as idades”, conta Joumana, que falou por telefone com o site de VEJA.  Em contato com outras culturas desde muito jovem, a editora começou a tomar consciência dos tabus existentes à sua volta e passou a se questionar por que deveria aceitá-los. “Não entendia por que algumas coisas não eram permitidas a mim, por ser mulher. Então, há dois anos, tive a ideia de fazer uma revista que desafiasse todos esses tabus, falando sobre corpo, sexualidade e erotismo”, conta. Para ela, Jasad é de fato peculiar no mundo árabe, pois as outras revistas do nicho são muito mais tímidas. “O que me inspirou foi simplesmente a vida que tenho e todos os problemas que enfrento. São minhas irritações e indignações que me motivam", diz Joumana.Além de falar sobre comportamento, Jasad concentra-se em temas como artes e literatura. Há também um espaço especial para tratar de questões como virgindade, homossexualidade, gravidez e masturbação. “São temas que ainda causam muito medo nas mulheres árabes. Elas têm dificuldade de se relacionar com seu próprio corpo”, diz. Para Joumana, todas as páginas da revista trazem alguma polêmica. “Lembro-me especialmente de uma matéria, com imagens, sobre o corpo do homem. O objetivo era mostrar que as mulheres também podem olhar, não apenas ser olhadas”, diz ela.Desde que a revista foi lançada, Joumana recebe insultos e ameaças, inclusive de morte. “Agora, depois de dois anos, não posso dizer que a revista é ‘bem aceita’ como projeto, mas pelo menos já é um fato contra o qual não se pode lutar”, comemora. Segundo ela, Jasad tem se mostrado apta a confrontar todos os obstáculos e continuar crescendo. “Não posso reclamar, pois, se por uma lado lido com tantas críticas, por outro recebo o apoio de muitas mulheres - e também homens - que me agradecem por dizer aquilo que a princípio não poderia ser dito. Então, não me considero uma vítima”, diz. Para ela, a controvérsia que a revista levanta é saudável: “O primeiro passo para qualquer mudança é a discussão, o que não se dá com frequência no mundo árabe.”

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