domingo, 3 de abril de 2011

Republicano quer ser primeiro presidente gay dos EUA

Fred Karger já veio ao Brasil várias vezes, mas quer voltar como chefe de Estado
Maurício Moraes, do R7

Em 1972, a professora Shirley Chrisholm foi a primeira mulher negra a se lançar pré-candidata à Presidência dos Estados Unidos. Passaram-se 36 anos, no entanto, para um negro, Barack Obama, chegar à Casa Branca. Ironicamente, a política democrata é uma das inspirações do primeiro pré-candidato republicano a se lançar à corrida para a sucessão de Obama. Fred Karger, 61 anos, quer ser o primeiro gay assumido a comandar o país mais poderoso do planeta.Consultor político de Reagan e dos ex-presidentes Gerald Ford e George W. Bush, Karger não é um estreante na política. Apesar de defender propostas tradicionalmente democratas, como o casamento gay, ele disse ao R7 estar desapontado com o governo Obama.
Com os conservadores republicanos, Karger compartilha a agenda do Estado mínimo (quanto menos interferência do governo na economia, melhor) e de impostos menores.Ator, como o ex-presidente republicano Ronald Reagan, de quem é grande admirador, Karger parece um estranho no ninho dos conservadores americanos. Ele sabe que suas chances de chegar à Casa Branca são pequenas. Mas tem consciência também de que sua ousadia de se lançar pré-candidato pode abrir caminho para mudanças no futuro da política americana.

Karger veio várias vezes ao Brasil, que segundo ele se parece com a Califórnia, seu Estado natal. Ele já esteve no Rio, em São Paulo, na Amazônia e no sul. Da próxima vez, no entanto, gostaria de começar por Brasília - não a turismo, mas como presidente, com direito a subir a rampa do Palácio do Planalto.

R7- O senhor apoia o fim da lei que proíbe gays assumidos de servirem o Exército e o casamento gay. Essas são bandeiras do Partido Democrata, do presidente Barack Obama, mas o senhor é republicano. Não há algo errado aí?
Fred Karger - Obama não tem ajudado muito nesses temas. A respeito do fim da lei "Don’t Ask, Don’t Tell" [que proibia gays assumidos de servirem o Exército, derrubada pelo Congresso, mas ainda em vigor], vamos ter de esperar mais um ano [para que valha na prática]. E não foram apenas os Democratas que votaram pelo fim da lei. Muitos republicanos também fizeram a coisa certa, que é o fim dessa lei terrível.
R7- No geral, como você avalia o governo Obama?
Karger - Estou desapontado. Esperava um desempenho melhor da economia, mas ele tem feito muito pouco. Nós esperamos que nossa economia seja tão forte quanto a do Brasil [risos].
R7- Mas nós ainda estamos muito longe de ter uma economia como a dos EUA, mesmo com vocês em crise... [risos]
Karger - Nós estamos aprendendo uns com os outros. E agora a economia do Brasil está indo muito bem. Eu adoro o seu país. Já fui algumas vezes para aí.
R7- A turismo?
Karger - Sim, já estive por todo o país, muitas vezes. Eu viajei ao Rio muitas vezes, tenho bons amigos por lá. Também conheço São Paulo, Foz do Iguaçu, Porto Alegre e Manaus. Eu adoro o Brasil. Me faz lembrar a Califórnia, onde eu nasci, com praias maravilhosas.
R7- Da próxima vez que vier será como presidente?
Karger - Espero que sim.
R7- Muitos analistas dizem que Obama corre o risco de se transformar em um novo presidente Jimmy Carter, que era bem intencionado, mas não conseguiu fazer muita coisa, sendo derrotado pelo carismático republicano Ronald Reagan [em 1981]. O senhor espera ser o Ronald Reagan da vez? De comum, vocês dois são atores, não?
Karger - Bem... [risos], eu sou bem diferente de Ronald Reagan, mas tenho muita coisa a aprender com ele. Ele disseminou um grande espírito de otimismo nos Estados Unidos [nos anos 1980], num momento que tínhamos uma recessão bem parecida com a que temos hoje. Eu realmente gostaria de ser como ele. Reagan foi maravilhoso para o país e para o mundo.
R7- O senhor é o primeiro gay assumido a entrar na corrida pela Casa Branca. O povo americano está preparado para eleger um gay presidente?
Karger - Uma pesquisa do ano passado mostrou que mais de 50% dos americanos não teriam problema em ter um presidente gay. Então eu resolvi ser o primeiro, e entrar na corrida.
R7- Muita gente tem receio de parecer homofóbica ao responder tais pesquisas e pode até dizer que vota em um candidato gay. Mas isso não necessariamente vai ocorrer, quando o eleitor estiver sozinho na cabine de votação. O senhor não acha?
Karger - Com certeza, tanto porque muita gente irá votar contra [um candidato gay] apenas por causa disso. Mas isso é algo que tende a mudar, e a melhorar. O fato de eu me lançar candidato agora já irá mudar a impressão de muita gente [sobre os gays]. A primeiro afro-americana a se lançar pré-candidata foi Shirley Chisholm, em 1972. Ela foi uma pioneira. Jesse Jackson, que também é afro-americano, concorreu nos anos 1980. Eles abriram o caminho para Barack Obama se tornar o primeiro presidente negro. Então, pode até demorar para os Estados Unidos mudarem de ideia, mas é preciso que alguém comece.
R7- O senhor tem sofrido preconceito desde que começou a campanha? Como tem sido a recepção no “cinturão da Bíblia” (conjunto de Estados do Meio-Oeste americano, conhecidos pela religiosidade)?
Karger - Sim, tenho sofrido bastante preconceito. Um político republicano bastante poderoso no Estado de Iowa tem me ameaçado e dito que vai trabalhar o quanto puder para parar minha campanha. Ele organizou um evento com outros pré-candidatos, mas me excluiu. Isso me machuca... mas não vou desistir. Eu tenho um partido e vou dar o meu melhor.
R7- O senhor tem conversado com o movimento (ultraconservador republicano) Tea Party?
Karger - Não, na verdade. Não sei como eles vão reagir. Há alguns membros do Tea Party que são "ok". Nós temos de ver o que partilhamos. Assim como eu, eles acreditam na intromissão mínima do Estado na economia, no corte dos impostos. Nisso eu concordo com eles.
R7- No que diz respeito à relação Brasil-EUA, por aqui todos gostariam de ver o apoio americano a um assento permanente para o Brasil no Conselho de Segurança da ONU. O senhor apoiaria essa proposta?
Karger - Acho que o Brasil merece, tanto porque é um dos maiores países do mundo. Eu creio e certamente consideraria isso. Mas tenho de estudar melhor a questão para fazer qualquer declaração a respeito.

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