A madame Teresa Cristina (Christiane Torloni) e a faz-tudo Griselda, vulgo Pereirão (Lilia Cabral) são as protagonistas da novela de Aguinaldo Silva
Depois de uma novela muito distante da realidade, com um protagonista que não trabalhava, duas herdeiras e três vilões psicopatas, a Globo apresenta agora uma trama destinada a colocar no centro do palco o que ela imagina ser a nova classe C do país.A julgar pelo primeiro capítulo de “Fina Estampa”, de Aguinaldo Silva, trata-se de um universo formado por gente batalhadora, com novos hábitos de consumo e sonhos de ascensão social.A trama vai girar em torno de Griselda da Silva Pereira, vulgo Pereirão, que circula pela Barra da Tijuca de macacão, boné e a caixa de ferramentas na mão. É uma faz-tudo, como informa o seu cartão. Tem três filhos e um neto – todos moram com ela, numa área mais pobre do bairro.
Na mesa do café da manhã, somos informados, apenas dois deles têm o privilégio de comer iogurte. Um dos potes é para Antenor, que estuda medicina. Está no terceiro ano e diz ser o melhor aluno da turma. Dedica-se aos estudos para não correr o risco de perder a bolsa.Antenor namora uma estudante de psicologia riquíssima, Patrícia Velmont, e diz para ela que a mãe é uma fazendeira. Antenor tem vergonha de Griselda – um conflito clássico da literatura popular desde que o mundo é mundo. A principal amiga de Griselda é Celeste, uma dona-de-casa cujo marido, Baltazar, é motorista de uma madame, Tereza Cristina Velmont. Baltazar espanca Celeste frequentemente, mas ela não tem coragem de denunciá-lo à polícia.Conhecida de Griselda, Vilma é taxista. Viúva, mora com a filha Leticia, professora, e a neta Carol. Vilma é outra batalhadora. Em sua casa há um computador de mesa, usado pela filha, para desespero da neta, que sonha com um notebook.O primeiro capítulo de “Fina Estampa” também mostrou, em detalhes, o núcleo rico, que faz o contraste necessário com a nova classe C – a família da madame, Teresa Cristina, o seu mordomo gay, Crodoaldo, o marido René, chef de cozinha, a filha Patrícia, que namora Antenor, além dos donos de uma grife de moda, Fio Carioca, um casal apaixonado formado por Paulo e Ester.Curiosamente, os ricos foram tratados em tom de comédia, enquanto os pobres mereceram um olhar respeitoso. Pode ser só um cuidado de primeiro capítulo. Veremos. Essa perspectiva não constitui novidade, mas o contraste com “Insensato Coração” é gritante demais.
Lilia Cabral, como Pereirão, e Christiane Torloni, como Tereza Cristina, são as protagonistas da trama. Ambas enfrentam bons desafios. Lilia tem a chance de criar um personagem bem original. La Torloni precisa inventar uma perua afetada que não lembre a infinidade de tipos semelhantes que povoam a teledramaturgia nacional. A novela está nas mãos das duas.
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