sexta-feira, 23 de março de 2012

Estreia dos cinemas, "Jogos Vorazes" é um "Big Brother" violento

MAYRA DIAS GOMES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE LOS ANGELES
RODRIGO SALEM
DE SÃO PAULO


São 24 participantes em busca do prêmio máximo. Apenas um chega ao fim. Câmeras escondidas, espalhadas em um cenário controlado, filmam cada movimento dos jogadores. Há romances falsos e amizades frágeis. O país inteiro fica à frente da TV. Lembra algo?

Pois é. Mas há uma grande diferença entre o "Big Brother" e o filme "Jogos Vorazes", adaptação do romance homônimo de Suzanne Collins, que já vendeu mais de 30 milhões de livros no mundo: os adolescentes selecionados precisam matar seus oponentes para vencer.A trama do longa, dirigido por Gary Ross ("A Vida em Preto e Branco"), amplifica a crítica da autora à obsessão moderna por reality shows."Há muitos artifícios usados para desviar a atenção das pessoas. A televisão é o ópio das massas", filosofa o cineasta à Folha.

O primeiro capítulo de uma trilogia --completada pelos livros "Em Chamas" e "A Esperança" mostra uma nação futurista dividida em distritos. Para comemorar o fim de uma violenta guerra civil, o governo promove anualmente os "Jogos Vorazes", nos quais dois representantes de cada distrito lutam até a morte, para deleite geral."O livro é muito importante para essa geração obcecada por reality shows e por diversão com a tragédia alheia", conta Jennifer Lawrence, atriz que encarna Katniss Everdeen, jogadora da região mais pobre do país e grande heroína da saga."O que Suzanne escreveu sobre o fato de o entretenimento se tornar um espetáculo bizarro, usado para controle político, é interessante", diz Ross. "Com o povo entretido, é possível controlá-lo."
"Jogos Vorazes" está sendo vendido como um novo "Crepúsculo". Os fãs dos vampiros românticos, porém, podem se chocar com a violência entre os participantes menores de idade. "Não é preciso apelar à violência gratuita para captar a intensidade dos livros, mas não a atenuei", disse o diretor à revista "Entertainment Weekly".
SUCESSO
Se o estúdio Lionsgate espera ter um novo "Crepúsculo", os números já estão ajudando. Dias antes da estreia nos Estados Unidos, "Jogos Vorazes" já havia esgotado mais de três mil sessões, alcançando US$ 15 milhões.O site Fandango, principal rede de vendas on-line de ingressos, divulgou que 75% de todas as transações efetuadas nas duas semanas que antecederam a produção foram de ingressos para a aventura futurista. A empresa também anunciou que os bilhetes virtuais já superam o desempenho de toda a carreira de "Crepúsculo".Se a análise dos especialistas for confirmada, "Jogos Vorazes" pode ter uma bilheteria no fim de semana entre US$ 90 milhões e US$ 120 milhões. Seria a coroação de uma blitz de marketing que envolveu internet, afago aos fãs dos livros e decisões estratégicas acertadas.
Pôsteres foram distribuídos em convenções de quadrinhos e em concursos virtuais. A página do Facebook --com 3 milhões de "curtir"-- era atualizada com caçadas e brindes, transmissão ao vivo de eventos e distribuição de ingressos. Tudo movido a um orçamento de US$ 45 milhões, valor baixo para um início de franquia que pode render bilhões à Lionsgate.O sucesso da campanha contrasta com a confusão que foi a publicidade de "John Carter: Entre Dois Mundos", o fracasso mais retumbante da Disney em anos. A produção foi herdada pelo novo presidente do estúdio, Rich Ross, mas a publicidade sofreu duas mudanças bruscas.A primeira, em 2010, com a entrada de uma novata na indústria cinematográfica, Marie Carney, para comandar a divisão de marketing. A segunda com a demissão da própria Marie, após 18 meses.O resultado foi a divulgação de um filme que teve três mudanças de nome e trailers esquizofrênicos.A Disney divulgou que "John Carter" terá prejuízo de US$ 200 milhões. Nem os números internacionais, cerca de US$ 130 milhões, salvarão a ficção do diretor Andrew Stanton. Para cobrir os custos e gerar lucro, o filme teria de render US$ 600 milhões.

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