sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Menino de 4 anos recebe transplante de cinco órgãos na Espanha

El País/Elena G. Sevillano

Em Madri (Espanha) O pai de Ibai Uriarte, Manuel, fala depressa. Em dois minutos entrará para ver seu filho, um menino de 4 anos que na madrugada do dia 29 recebeu no Hospital de La Paz o transplante de cinco órgãos ao mesmo tempo. De sua boca saem palavras como "surpresa", "presente", "milagre". Foi "um milagre de Natal", diz.Porque o pequeno Ibai estava morrendo. Quando chegou ao La Paz, há três semanas, os médicos lhe disseram o que não queria ouvir. Que se em dois ou três dias não surgisse um doador compatível Ibai morreria. O primeiro milagre talvez tenha sido que o menino aguentou muito mais. O segundo, que a família de outro menino, português, morto de um acidente vascular cerebral, concordou em doar seus órgãos. Eram compatíveis.Ibai despertou da anestesia na quinta-feira na Unidade de Terapia Intensiva pediátrica do La Paz, o único hospital espanhol que realiza esse tipo de intervenção. A dele é a número 21 desde 2003. Transplante multivisceral, é como chamam os especialistas. No caso de Ibai, fígado, estômago, duodeno, intestino delgado e pâncreas.O caso dele é especial. Geralmente as crianças que se submetem a essas operações nasceram com problemas congênitos. O de Ibai, morador da localidade de Zaratamo, em Vizcaya (noroeste da Espanha), foi adquirido. No hospital de Cruces lhe extirparam um tumor do abdômen em 29 de novembro. Era um teratoma (um embrião gêmeo que havia se enquistado) de 700 gramas. A operação se complicou por um erro que afetou duas artérias vitais. Os órgãos deixaram de receber fluxo sanguíneo e começaram a necrosar, a morrer.
"Sinceramente, quando o menino chegou pensamos que ou seria transplantado nesse fim de semana ou morreria", explica o cirurgião do La Paz Manuel López Santamaría, o maior especialista em transplante multivisceral infantil da Espanha. "Sua situação era irreversível, não tinha solução", acrescenta. O menino ingressou com uma falência hepática fulminante. Mas melhorou um pouco, para surpresa dos médicos.
Em 14 de dezembro o submeteram a uma "cirurgia paliativa": extirparam seus órgãos necrosados à espera de um transplante que ainda poderia demorar. Foi então que viram o alcance dos danos. "Era uma catástrofe abdominal, não tinha nenhum órgão são", lembra o médico.No dia 22 de dezembro à tarde chega um aviso. Pode haver um doador em Portugal. É um menino de 16 quilos do qual os médicos não querem dar mais detalhes para preservar sua identidade. A equipe cirúrgica sai para Lisboa. Às 22h15 começa a extração. Às 23h30 os cirurgiões telefonam para o La Paz: os órgãos são válidos. Enquanto isso, em Madri, Ibai entra na sala de cirurgia e começa a ser preparado. Pegam suas veias e o anestesiam. Às 3 da manhã a equipe de López Santamaría inicia o transplante. Acaba às 9h30.Cinco órgãos em pouco mais de seis horas. Uma intervenção curta, afirma o cirurgião, já que outras vezes se prolongam por até 12 horas. Neste caso a cirurgia prévia - já haviam lhe retirado o intestino, o duodeno e a cabeça do pâncreas - tinha preparado o terreno.Como Ibai, outras sete crianças esperam no La Paz uma oportunidade semelhante. O pai de Ibai, emocionado, exultante, repetia na quinta-feira para televisões, rádios e jornais seu agradecimento à família portuguesa. "É algo muito bonito salvar a vida de uma criança, embora tenham a infelicidade de perder a sua. Esses pais podem estar orgulhosos e nós estamos muito, muito agradecidos." O presente chegou a tempo. "É quase um milagre que tenha surgido um doador nesse momento", admite López Santamaría, entre risos.
"Os doadores infantis são extraordinariamente raros", afirmou o coordenador de transplantes do La Paz, Santiago Yus. "Por sorte não morrem muitas crianças, por isso as possibilidades eram muito baixas."
Ainda faltam três meses ou mais para que Ibai saia do hospital. Seu prognóstico é reservado; será preciso esperar duas semanas para ver como evolui. Há apenas uma dezena de doações infantis por ano na comunidade de Madri. O La Paz tem outras sete crianças na lista de espera para um transplante como o de Ibai.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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