sábado, 5 de fevereiro de 2011

Censura: a pressão americana sobre o Google

Damien Leloup/LE MONDE
O Google como arma do departamento de Estado americano em sua luta contra a censura: os cabos diplomáticos americanos, revelados pelo WikiLeaks e consultados pelo “Le Monde”, mostram que, por diversas vezes, os Estados Unidos fizeram pressão sobre o motor de busca para que ele desse apoio aos defensores da liberdade de expressão no Egito.Um telegrama da embaixada do Cairo, datado de novembro de 2008, relata que a embaixada e o departamento de Estado americano intervieram para que a empresa reativasse as contas de blogueiros egípcios em sua plataforma de compartilhamento de vídeos, o YouTube. No final de 2007, um blogueiro foi solicitar a ajuda da embaixada, pouco após a supressão da conta do YouTube por meio da qual ele havia publicado um vídeo mostrando maus tratos em uma delegacia egípcia. A embaixada e o departamento de Estado contataram então o Google, que reativou a conta pouco depois.
A embaixada do Cairo, que em novembro de 2008 havia enfrentado um cenário similar, recomendou uma intervenção imediata. Os dois vídeos que acabavam de ser apagados mostravam uma execução sumária cometida por policiais e uma mulher torturada em uma delegacia. Eles foram publicados por “um blogueiro influente e um militante dos direitos humanos, e nós queremos fazer de tudo que estiver em nosso poder para ajudá-lo a tornar públicos os abusos da polícia”, detalha o telegrama. “Nós acreditamos que uma intervenção do departamento de Estado junto ao Google ajudaria no restabelecimento de sua conta”. Um argumento de peso: o Google teve, por diversas vezes, o apoio por parte da diplomacia americana, especialmente na China.
O estupor do ministro
O Google proíbe a publicação de vídeos violentos no YouTube, mas aceitou reativar as contas canceladas. No final de 2007, após ter devolvido ao blogueiro Wael Abbas sua conta no YouTube, a empresa reconheceu ter suprimido por engano “vídeos que traziam a prova de violações dos direitos humanos porque o contexto não estava claro”.Para os Estados Unidos, o Google, e em especial o YouTube, exerce um papel importante no Egito, e no mundo árabe como um todo. No dia 5 de maio de 2007, o embaixador americano na Tunísia foi convocado pelo ministro das Relações Exteriores, Abdelwahab Abdallah. Depois de ouvir as queixas de seu interlocutor, o embaixador direcionou a conversa para a censura da Rede: “O embaixador lembrou claramente que os Estados Unidos não são contra o bloqueio de sites terroristas, mas que inúmeros outros sites, em especial o YouTube, são bloqueados na Tunísia”. Estupor do ministro: ele afirmou não conhecer o YouTube, e explicou não saber como se liga um computador.Mas o Google, que é ao mesmo tempo arma e muitas vezes aliado de uma diplomacia americana que considera que a liberdade de expressão, a democracia e a abertura de mercados a suas empresas formam um todo, nem sempre agiu conforme as vontades do departamento de Estado. Washington teria, entre outras coisas, desejado que o Google aplicasse de forma diferente a lei egípcia sobre a censura. Como os servidores da empresa se situavam fora do Egito, foram os provedores de acesso à internet que bloquearam os conteúdos proibidos, sem que o Google pudesse ser acusado diretamente de censura. “Mas com essa abordagem, o Google está pisando em ovos, e se recusa tanto a apoiar como a rejeitar as limitações da liberdade de expressão”, escreve um diplomata alocado no Cairo.

Tradução: Lana Lim

Nenhum comentário:

Postar um comentário

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...