Sabe-se do poder das imagens. O cinema americano é potente porque seu país o entende como o melhor da “propaganda de guerra”. A importância de saber construir imagens é vital para a política de uma nação contemporânea. A França trata a sétima arte como assunto de Estado e não é à toa que – apesar de uma opinião pública ainda desfavorável – o cinema brasileiro recebe incentivos do Governo.
No campo das imagens, o Brasil soube lidar melhor com a televisão e a Rede Globo influenciou ideias e comportamentos através de toda a ditadura militar e o período de abertura política. A novela “Vale Tudo”, que está sendo reprisada atualmente, é um grande exemplo dessa tese. O tênue fio que separa ficção e realidade se quebra a todo instante durante esse clássico de Gilberto Braga. Muitas vezes a realidade estava melhor retratada nas falas de Odete Roitman e Raquel Accioli que em todo o jornalismo feito na época. Posto isso, qualquer crítico sério de TV pode enxergar melhor os sinais do real emanados pela ficção.
No reality show Big Brother Brasil em sua décima versão, fui um dos poucos (odeio esse tipo de narcisismo) que nas minhas colunas quinzenais na Revista da Folha, ataquei a homofobia do concorrente Marcelo Dourado. Oras, o reportar não é o papel de um colunista, mas sim criticar e a grande maioria - na época - preferiu se abster, por medo de máfias e modernosos escabrosos. Lembro de escrever que a minha preocupação de sentir que antes de Dourado, as pessoas um pouco mais esclarecidas tinham vergonha de odiar os gays e, a partir daquele momento, esse sentimento de ultraje virou orgulho. Não tenho dúvidas que os ataques homofóbicos na Paulista são uma continuidade dessa expressão liberada. Alguns acharam que eu exagerava, outros me atacaram de heterofóbico. Quanta estupidez, a realidade se impôs!Mas da atitude crítica de apontar o papel da Globo nesse imbroglio fez com que o repórter James Cimino, da Folha de São Paulo, fizesse uma série de matérias que chamou a atenção do Ministério Público que obrigou o programa a se retratar sobre a afirmação do campeão daquela edição que disse: "Quem só pega Aids são os gays".Com o Ministério Público mais na cola, começou a décima primeira edição do reality. E novamente estava claro que o macho adulto sempre no comando seria o campeão, quem sabe Maurício, quem sabe Rodrigão. Mas o papel crítico dos colunistas Nina Lemos – que foi ameaçada no Twitter por Dourado - e Tony Goés e suas ações denunciando que existia uma ideologia misógina e que o machismo poderia novamente triunfar começou a influenciar os leitores. E finalmente, uma mulher, que não era pobre – isto é, não ganhou por pena, caridade – venceu o reality. Claro que a simpatia e o carisma de Maria, assim como seu sofrimento (mesmo que encenado, isso pouco importa) conquistaram o público. Enquanto isso, aqui fora, o Governo começou a fazer no mês de março uma série de ações afirmativas em relação às mulheres (Dilma recebeu Hebe, Shakira, abriu exposição de artistas mulheres). Por isso, tolos os que separam ficção de realidade e ideologia.Venceu uma mulher quebrando a lógica das quatro edições anteriores, venceu a ação crítica atuante também, como venceu uma resposta ao obscurantismo do ano passado. Enfim, venceu uma consciência mais humanista e uma crítica mais consciente de seu papel.
Escrito por Vitor Angelo -jornalista e roteirista. Foi colunista da seção GLS da Revista da Folha. É co-autor de "Aurélia - A Dicionária da Língua Afiada" (2006) sobre termos e expressões do universo homossexual
Nenhum comentário:
Postar um comentário