segunda-feira, 18 de abril de 2011

Nana Caymmi é melhor que Billie Holiday, afirma diretor do documentário sobre musa da MPB

Heitor Augusto /CINECLICK

O franco-suíço Georges Gachot não se esquece da primeira vez que viu Dinahir Tostes Caymmi no palco. “Estava filmando o show Brasileirinho, da Maria Bethânia, no Canecão”, conta, num esforçado português, o diretor ao Cineclick. “De repente veio uma mulher que eu não conhecia cantando João Valentão. Foi um choque, fiquei me perguntando quem era aquela mulher a cantar o jazz melhor do que Billie Holiday”.
O encontro – chamado de “choque cultural” por Gachot – desdobrou, seis anos depois, no documentário Nana Caymmi em Rio Sonata, que chega aos cinemas nesta sexta-feira (21/4). A câmera segue a cantora, apresenta seus parceiros e desvenda seu universo marcado por interpretações fortes de Resposta ao Tempo, Não se Esqueça de Mim, Sem Você e muitas outras.Gachot conta que não se sente confortável em ver Nana Caymmi em Rio Sonata classificado como documentário. “Faço filmes musicais, uma forma específica de cinema. Trabalho para descobrir a forma do filme musical, permitindo o espectador entrar na arte ou na força da música de uma intérprete”.No documentário (ou filme musical, como prefere Gachot), o espectador acompanha Nana por vários lugares da cidade, divide a intimidade do estúdio de gravação, intui suas aproximações musicais. Por exemplo, a longeva parceria artística com o irmão Dori Caymmi.Paralelamente, a música da intérprete que surgiu em 1966 com a canção Bom Dia, cantada ao lado de Gilberto Gil no Festival Internacional da Canção, ilustra pedaços do Rio de Janeiro. “No começo visualizava um filme mais avermelhado ou amarelado. Penso que a música da Nana é leve, ligeira. Ou seja, teria de construir um filme da mesma maneira, quase como levitação, um filme impressionista”, explica Gachot, que revela ter 100 horas de material filmado.


Nana Caymmi em 1997 interpretando a canção Atrás da Porta: sequência musical é um dos destaques no documentário

Bethânia X Nana Caymmi

“Demorei um ano e meio para editar”. O motivo? A dificuldade de se livrar de Maria Bethânia. “Antes de montar este Nana Caymmi em Rio Sonata ainda estava muito imbuído de Música É Perfume, documentário sobre a Bethânia. As duas têm uma dinâmica muito diferente, demorei a me desvencilhar”.Um dos momentos mais engraçados do documentário é quando Nana mostra desdém pela Tropicália: “eu nunca entendi, se alguém sentar aqui e me explicar em posso até entender”. Ponto polêmico que o filme decide não explorar. “Isso é discussão para outro filme”, argumenta Gachot.
O universo de Nana é muito mais próximo do clássico do que o popular. “Às vezes fico pensando: o que um Bach ou Mozart, se conhecessem a música brasileira de hoje, fariam com isso? Bach certamente gostaria da ideia de compor para Nana. Também acho que Schumann ou Debussy adorariam compor uma canção para ela, para o timbre dela”, opina o diretor.Gachot revela também que fazer filmes musicais será sua aspiração pelo resto da carreira. “É a minha vida. A música tem um mistério que quero descobrir, trata-se da arte máxima porque você pode compartilhar. Quero encontrar a criação artística”.

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