Novela que marcou época entre 1977 e 78 lançou o bordão “quem matou”, que mobilizou até o general-presidente Geisel
Carol Carvalho/VEJA
Pela primeira vez, os brasileiros se viram envolvidos em um suspense policial novelesco. O mistério durou cinco meses, mais da metade da novela, que esteve no ar de dezembro de 1977 a julho de 1978. Foi com o assassinato do industrial libanês Salomão Hayala (Dionísio Azevedo, agora Daniel Filho) que nasceu o bordão "quem matou?", retomado anos depois em Vale Tudo, com a morte de Odete Roitman. O assunto ganhou a primeira página dos jornais e revistas da época, e inspirou toda sorte de especulações. Na trama original, coube a Felipe Cerqueira (Edwin Luisi, agora Henri Castelli), jovem amante de Clô Hayala (Tereza Rachel, agora Regina Duarte), esposa de Salomão, ser o algoz. No capítulo 42, ele golpeia o industrial na cabeça com um revólver e entra para a história da dramaturgia.
Clássico de Janete Clair da década de 1970, a novela O Astro ganha remake em formato de minissérie na TV Globo, a partir de julho. Rodrigo Lombardi assume o papel do trambiqueiro Herculano, interpretado na versão original por Francisco Cuoco - que retorna na pele do mestre Ferragus. A nova O Astro será exibida a partir de julho, de terça a sexta-feira, às 23h. Veja algumas das primeiras cenas do remake.
Francisco Cuoco durante cena de ilusionismo da novela O Astro, da Rede Globo - Divulgação/TV Globo
O retorno da novela O Astro à tela da Globo, como minissérie em 60 capítulos a partir de 12 de julho, não é, como se diz nos créditos finais de um folhetim, mera coincidência. A trama foi a aposta da emissora, que a exibiu no fim dos anos 1970, para marcar os 60 anos da teledramaturgia brasileira e abrir uma possível faixa de remakes às 23h. Uma aposta de peso. Clássico de uma grife da dramaturgia nacional, a autora Janete Clair, e responsável por criar padrões que ainda são seguidos pelos autores de hoje, O Astro é considerada uma das melhores novelas já produzidas.
Foram várias as inovações de O Astro. Ela usou o suspense de maneira inédita, e fez com que os brasileiros se perguntassem por meses “quem matou Salomão Hayala". O bordão seria retomado anos depois em Vale Tudo, com a morte de Odete Roitman. E ainda hoje, quando é preciso vitaminar o ibope de uma trama das 21 horas, o truque do assassinato com vários suspeitos é usado: Passione, que esteve no ar até janeiro deste ano, certamente não foi a última a lançar mão dele.O personagem principal de O Astro também causou estranheza em 1977.
Nem as senhoras mais recatadas se sentiram ofendidas com a nudez de Tony Ramos. Não que a visão fosse deslumbrante, já que recoberta de pelos, mas a forma como o primeiro nu masculino chegou às telenovelas brasileiras teve ares de purismo e santidade. O folhetim, de direção de Daniel Filho e Gonzaga Blota, teve o cuidado de associar a cena aos gestos de São Francisco de Assis. Márcio Hayala (Tony Ramos, agora Thiago Fragoso) se despe e entrega as roupas ao pai após renegar sua herança, tal qual o religioso italiano. A câmera percorre apenas a lateral do corpo de Hayala, enquanto ele sai às ruas completamente sem roupa. Uma cena simbólica e de bom gosto, na opinião de especialistas.
Nunca houvera no horário nobre um anti-herói tão sedutor quanto Herculano Quintanilha (papel que foi do ator Francisco Cuoco e agora é de Rodrigo Lombardi), astrólogo charlatão e desonesto. Dali em diante, o estudo da ambiguidade moral foi um dos temas principais das novelas.Há muito mais para lembrar: Tony Ramos, por exemplo, protagonizou o primeiro nu masculino, enquanto Elizabeth Savalla tinha um trabalho inesperado - era uma mulher batalhadora, que ganhava a vida dirigindo um taxi. A menopausa foi um tema delicado que Janete Clair se atreveu a abordar.
O Astro, a releitura - Embora em clássico não se deva mexer muito, como recomenda Cintia Lopes, co-autora do livro A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo, o remake de O Astro deve conter adaptações. “Lá se vão mais de trinta anos entre uma versão e outra. Com isso, foi preciso modernizar o perfil dos personagens. Mantivemos o essencial, mas os caminhos serão diferentes”, afirmam os autores Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro .A trama é centrada no trambiqueiro com pinta de vidente Herculano Quintanilha. Ele tenta dar um golpe nos moradores de uma cidade pequena, mas é enganado por seu parceiro, o também desonesto Neco (Flávio Migliaccio, agora Humberto Martins), que foge com todo o dinheiro. Herculano é preso, e na cadeia aprende sobre ilusionismo. Quando ganha a liberdade, passa a se apresentar em um teatro no Rio de Janeiro, e se transforma no Professor Astro. É durante os shows que Herculano reencontra seu desafeto Neco e conhece sua paixão Amanda (Dina Sfat, agora Carolina Ferraz). Ele se envolve ainda com o poderoso empresário Salomão Hayala (Dionísio Azevedo, agora Daniel Filho), que é pai de Márcio (Tony Ramos, agora Thiago Fragoso).A sintonia com a versão original da novela pode ser encontrada em brincadeiras caras aos remakes. Francisco Cuoco volta como o mestre Ferragus, tutor de Herculano na arte da magia. Daniel Filho, que dirigiu a primeira novela com Gonzaga Blota, será o novo Salomão Hayala. O tema de abertura, a canção Bijuterias, de João Bosco, viva no inconsciente coletivo, retorna igual para a satisfação dos saudosos. E, para quem está se perguntando o que acontecerá com Salomão Hayala, a resposta é sim, ele vai morrer. Já o assassino deve mudar. Será preciso assistir à trama para conhecê-lo, dizem os autores, que querem repetir a comoção causada pelo folhetim original.
Em 1978, a mobilização em torno do assassinato do industrial libanês ganhou não apenas as manchetes de jornais e revistas, mas também o interesse de Ernesto Geisel e de Carlos Drummond de Andrade. O general-presidente lançou a infame pergunta ao diretor Daniel Filho, ao que teve de ouvir tratar-se de um “segredo de estado”. E o poeta sepultou o assunto na coluna que assinava no Jornal do Brasil - só depois, é claro, de subirem os letreiros finais. “Agora que O Astro terminou, vamos cuidar da vida, que o Brasil está lá fora esperando.”
A família Hayala foi uma das primeiras a ver o seu império ruir em pleno horário nobre. O poderoso industrial libanês Salomão (Dionísio Azevedo) comandava os negócios em sociedade com os irmãos Samir (Rubens de Falco), Youssef (Isaac Bardavid) e Amin (Macedo Neto) e o amigo Mello Assunção (Hélio Ary). A ganância o levou à falência, e os conflitos familiares, à frustração e à morte. O filho, Márcio, relutava em seguir o sonho do pai de vê-lo à frente das suas empresas. Já a esposa, Clô (Tereza Rachel, agora Regina Duarte), era amante do cabeleireiro Felipe (Edwin Luisi, agora Henri Castelli), que no último capítulo se revelou o assassino da trama.
Remake, força e risco - Releituras não são, por si sós, garantia de sucesso. Da mesma aclamada Janete Clair, Pecado Capital, por exemplo, não repetiu o sucesso original ao voltar à TV na faixa das 18h, em 1998, com texto de Glória Perez. A Globo testa agora um formato mais enxuto, num horário que pode atrair tanto saudosos do original quanto um público bem mais jovem. Há outro remake no forno. Em 2012, Silvio de Abreu volta com Guerra dos Sexos. Também ela foi uma trama inovadora, que inaugurou, em 1983, a comédia do estilo pastelão, além de usar recursos não-convencionais, como personagens que se dirigiam às câmeras e "conversavam" com os telespectadores. “É bom que se mostre às novas gerações a relevância dos clássicos", diz Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia de Artes e Ciências da Televisão de Nova York. "Os clássicos dão estofo e cultura a pessoas que nasceram mergulhadas na cultura televisiva e digital."
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