domingo, 21 de agosto de 2011

O samba engajado de Leci Brandão

Uma Leci pouco lembrada
Ombro amigo, de Leci Brandão (1977), é o equivalente, no samba, a Galeria do amor (1975), de Agnaldo Timóteo, no brega.  Se Timóteo canta sobre a célebre Galeria Alaska, ponto de encontro de gays, em Copacabana, Leci Brandão inspirou-se na Acapulco, bar e restaurante  gay do mesmo bairro, da Zona Sul do Rio de Janeiro. Esta e mais 17 composições da sambista carioca estão no CD O canto livre de Leci Brandão – as primeiras gravações + raridades e inéditas (Universal Music), projeto assinado por Rodrigo Faour, pesquisador, especializado em cantoras.Mais conhecida como pagodeira, presença constante nas popularescas rodas de pagode, que dominam o país já há alguns anos, Leci Brandão um dia já se arvorou a Chico Buarque ou Paulo César Pinheiro, escrevia letras refinadas, com melodias e harmonias equivalentes, e era acompanhada por grupos como o Azimuth. Faour, resgata, literalmente, parte desta fase, que durou cinco anos, enquanto ela foi contratada da Phillips/Polygram (assumida pela Universal Music). Leci só apareceu para o grande público, quando defendeu Esta tal criatura, no festival Abertura, promovido pela Rede Globo, em 1980 (o compacto foi lançado, e estourou, enquanto o festival ainda estava sendo disputado).
Sua carreira, no entanto, remonta a 1965, quando estava com 21 anos, e cantou em programas da época, como A Grande Chance, de Flávio Cavalcanti. Em 1971, já angariava bastante prestígio para integrar a ala de compositores da Mangueira. Ombro amigo entrou na trilha da novela Espelho mágico, em 1977, embora sem chamar atenção pela temática da letra. Seu engajamento pela causa gay gerou outras canções, (nem sempre sambas), como Assumindo, Questão de gosto, Esta tal criatura, ou Chantagem, segundo Leci Brandão, todas inspiradas em fatos testemunhados, ou vividos por ela. O disco traz raridades como canções lançadas apenas em compacto, e versões alternativas, inéditas. Coisa rara para uma cantora como Leci, que trafega na contramão da MPB, embora cante em festas populares.
Assim como Apesar de você levou a censura a passar batida, sem entender a diatribe de Chico Buarque contra a ditadura militar, as composições de Leci Brandão também foram consumidas como tendo outras conotações. Assim é que a compilação feita por Rodrigo Faour torna-se atualíssima, pela discussão aberta que hoje se faz na sociedade sobre o homossexualismo, inclusive discutida nas novelas globais.  E atual também por atrair a atenção de outro público, para uma Leci Brandão menos conhecida, que desde cedo foi à luta, enfrentando preconceitos. Negra e pobre, por exemplo, encarou o exame de admissão ao requintado e seleto Colégio Pedro II, no Rio, e foi aprovada.
Ao frequentar bares e boates gays passou a colocar na sua música as angústias e dilemas das amigas e amigos deste universo particular. Sua fase atual, de composições simples e diretas é, mais ou menos, como se dissesse: já cumpri minha parte, agora deixem eu me divertir.

Postado por José Teles

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