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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

30 anos depois ,fãs acham que morte de ELIS REGINA é suspeita-Caso Herzog deve ser investigado, diz ministro da Justiça

LUCAS FERRAZ/RUBENS VALENTE
DE BRASÍLIA
MARIANA SCHREIBER
DE SÃO PAULO /FOLHA

Para autoridades do governo federal, a Comissão da Verdade deveria convocar para depor Silvaldo Leung Vieira, autor da imagem do jornalista Vladimir Herzog morto numa cela do DOI-Codi, em São Paulo, em 1975. Em reportagem publicada ontem pela Folha, Silvaldo diz ter sido "usado" pela ditadura (1964-85) para forjar a cena de suicídio de Herzog, que, segundo testemunhas, morreu após ser torturado.
O depoimento reforça as contestações da versão oficial feitas por historiadores, parentes e testemunhas.
A comissão, ainda não instalada, foi criada no final de 2011 pela presidente Dilma Rousseff para apurar violações aos direitos humanos cometidas por agentes do Estado entre 1946 e 1988.
O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse ser "absolutamente natural que fatos como esse sejam investigados pela comissão". Segundo o ministro, "a reportagem revela que há muitas coisas ainda a serem descobertas" sobre o período militar. Para o coordenador do projeto do governo federal Direito à Memória e à Verdade, Gilney Amorim Viana, o depoimento de Silvaldo à Comissão da Verdade poderá ajudar a identificar os responsáveis pela morte de Herzog e pela montagem da cena. Para ele, o fotógrafo é "uma testemunha independente", que "pode atestar que aquele cenário foi montado". "Ele quebra toda a versão da repressão", disse.
Tanto Viana como Susana Lisboa, membro da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos pela Ditadura Militar, creem que o caso abre a possibilidade de localizar fotógrafos que tenham registrado mortes semelhantes. Eles citam os casos de Roberto Cietto (1969) e de Milton Soares de Castro (1967), ambos supostos suicidas. Silvaldo pediu em 2008 à Comissão de Anistia, ligada ao Ministério da Justiça, indenização estimada em R$ 908 mil, entre outros pleitos. Ele alega ter sido perseguido por sua atitude "questionadora" ao voltar a ser recrutado para fazer fotos como aquela. Em 1979, partiu para um autoexílio nos EUA.
Seu caso não foi julgado e, segundo Paulo Abrão, presidente da Comissão de Anistia, não está entre as prioridades nem tem previsão de ser analisado. "A priori, ele foi um agente que colaborou com a repressão", afirmou. Para Ivo Herzog, filho de Vladimir, a história deve ser investigada pela Comissão da Verdade. "Era um fato [a identidade de Silvaldo] que ninguém nunca tinha parado para pensar e investigar".
"Algumas pessoas ainda sustentavam a versão do suicídio. Essa versão não tem pé nem cabeça, mas acho que a reportagem ajuda a enterrar ainda mais", disse à Folha.
Fãs acham que "explicação" sobre a morte de ELIS REGINA por suicídio é
"suspeita " e rejeitam resultado de laudo da época

Abafadas as polêmicas na época,a morte por cocaína nunca foi "digerida" pelos seus fãs até hoje,30 anos após seu falecimento.
Segundo muitos,Elis nunca teria se suicidado e nem teria motivos prá isso no auge de seu sucesso.As suspeitas começaram por causa de declarações fortes de Elis sobre a ditadura,especialmente sobre o atentado do Rio Centro,seu namoro com o advogado Samuel Mac Dowell de Figueiredo ligado ao DOPS e sua autópsia realizada por Harry Shibata,o mesmo legista que forjou o atestado de Herzog.
Antes que o laudo com a causa da morte se tornasse público, houve uma relutância de alguns amigos da cantora e de seu último namorado, o advogado Samuel Mac Dowell de Figueiredo, em deixar ocorrer a autópsia, argumentando que ela não usava drogas.Sempre muito engajada nas causas políticas,Elis participou ativamente de movimentos contra a ditadura brasileira em uma série de movimentos de renovação política e cultural brasileira, sendo voz ativa da campanha pela Anistia de exilados brasileiros.Ela criticou, por muitas vezes, o regime antidemocrático que perseguiu e exilou muitos músicos em sua época, chegando a declarar em uma entrevista, que o Brasil era governado por gorilas.
Sua fama a salvaria da cadeia, mas não dos gorilas. Foi obrigada pelas autoridades a cantar o hino nacional durante um espetáculo em um estádio, fato que despertou a ira da esquerda brasileira.
Uma de suas interpretações mais famosas foi a da canção O Bêbado e a Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc, que se transformou no hino da volta do exílio.
Harry Shibata foi um polêmico médico legista.Ele foi considerado conivente com os laudos que elaborou de vítimas do regime militar. Foi acusado de instruir os torturadores a não deixar marcas de suas ações nos corpos dos torturados.Destacou-se por ter sido autor do laudo de Waldimir Herzog e de dirigir o IML quando o corpo de Elis Regina foi levado para lá.
Fiel Filho
Atestou que a causa mortis do operário Manuel Fiel Filho fora suicídio.
Vladimir Herzog
O então legista Harry Shibata em 1975 assinou o laudo sobre a morte do jornalista Vladimir Herzog, declarando-o suicida sem ter visto o corpo remetido ao IML pelo exército, em cujo DOI-CODI ele morrera.
Elis Regina
A médica que recebeu Elis Regina no Hospital das Clínicas constatou que ela havia chegado sem vida .Não forneceu o atestado de óbito por sentir-se impossibilitada de concluir por uma morte natural, o corpo de Elis foi assim remetido para autópsia no Instituto Médico Legal.
O laudo médico foi elaborado por José Luiz Lourenço e Chibly Hada, que atestaram que Elis morreu pela intoxicação combinada de bebidas e cocaína. O diretor do IML era Harry Shibata.
Segundo rumores,familiares de ELIS pediram que não se aprofundassem no caso,visto temerem represálias dos militares.

Análise da Letra da Música O Bêbado e a Equilibrista

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos…

Certamente muito impressionou a mente do psiquiatra, Aldir Blanc, a queda repentina dos 122 metros do elevado da Av. Paulo de Frotin, matando 28 pessoas naquela tarde carioca de 1971.
Em março de 1964, havia se instalado no Brasil uma nova forma de governo, com a mesma marca do inesperado, causando impactos sociais para todos os lados.Como toda matéria a ser publicada passava por uma revisão, entrou nessa música o talento de Aldir, ao falar de uma maneira codificada sua mensagem de protesto. Cada palavra ganhou significado novo, sem perder a beleza e a musicalidade. Por isso esta música até hoje é lembrada em manifestações populares.Desde o cinema mudo, Charles Chaplin encarnou a figura do palhaço, cheio de sonhos e idealismo. Vivendo a personagem do bêbado, ele passa, como marca maior, a irreverência, que caracteriza o artista.Aldir Blanc começa sua música naquela noite enlutada, após o rápido cair de tarde daquele dia de 1971. Ali a população carioca lamentou a dor da perda dos seus mortos. Da mesma forma, os novos rumos do país foram comparados a uma longa noite de vinte anos, onde todos viviam na corda bamba, tateando no escuro cada passo a ser dado, correndo o risco de cair a qualquer momento.

A lua
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

Apontaram alguns especialistas a Rede Globo como a figura da lua, que compactuava com o poder, representado pelas estrelas.Eu prefiro dizer que a lua apontava com sua luz o caminho a ser percorrido. Ela iluminava o palco, como um holofote gigantesco, fazendo o povo enxergar o fino fio de esperança que estava sob seus pés.Enquanto o povo seguia o caminho árido, tal qual a provação sofrida pelo povo de Israel no deserto, eles tinham à noite aquele clarão a iluminar o percurso. Nos dois casos, era como um sinal de que Deus não havia se esquecido deles.
Como a mulher, a lua não é indiferente como as estrelas frias, ela tem fases. Enfeita-se no céu para tornar a noite mais interessante, aliviando a sensação lúgubre que ela passa. Se necessário for, ela fará de tudo para fazer a noite mais bonita, inclusive pedindo por empréstimo um pouco mais de luz às estrelas.
E nuvens!
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!
Louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil.
Meu Brasil!…

No deserto havia também uma nuvem que acompanhava o povo sofrido. Lá no Sinai, servia para fazer sombra, mas aqui é utilizada como mata-borrão, suprimindo os excessos da tinta derramada. Enquanto isso, os mais irreverentes, sem medir consequências, faziam graça na tentativa de arrancar um riso.

Que sonha com a volta
Do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora!
A nossa Pátria
Mãe gentil

foto acima-Clarice Herzog,esposa de Vladmir

Choram Marias
E Clarisses
No solo do Brasil…

Betinho partiu para sempre, mas não foi daquela vez, na qual era chorado por sua esposa Maria, junto com Clarice. Sonhavam que seus maridos regressariam um dia para viver de novo no solo brasileiro.
Mas sei que uma dor
Assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança…

De novo a esperança, representada pela lua, conclamava para que todos continuassem perseverantes, pois, no fim, tudo teria valido a pena.
Dança na corda bamba
De sombrinha
E em cada passo
Dessa linha
Pode se machucar…

Enquanto se espera, enche-se de esperança e, mesmo que às vezes haja esmorecimento, fazendo bambear na corda bamba, depois o equilíbrio é recobrado. A sombrinha colorida é como o arco-íris – um sinal celestial de uma aliança com o divino.
Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show
De todo artista
Tem que continuar…

A mensagem dos artistas mudou de roupagem, exigindo escaramuças e subterfúgios para enfrentar aqueles tempos de maior rigor, mas não deixou de ser passada como um manifesto, diante do controle necessário para coibir os avanços ideológicos divergentes.

Autor da Análise da Música José Maria Cavalcanti/bollog

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Folha localiza em Los Angeles fotógrafo da morte de Herzog

Uma revelação exclusiva é o destaque da "Ilustríssima" deste domingo: o repórter da Lucas Ferraz, da Sucursal de Brasília, localizou em Los Angeles o autor da mais importante imagem da história do Brasil nos anos 1970 --a foto do jornalista Vladimir Herzog morto numa cela do DOI-Codi, em São Paulo, no ano de 1975.
Zen Sekizawa/Folhapress
Silvaldo Leung Vieira, o então fotógrafo da Polícia Civil de São Paulo localizado pela Folha
Silvaldo Leung Vieira, o então fotógrafo da Polícia Civil de São Paulo localizado pela Folha em Los Angeles

Fotógrafo da Polícia Civil de São Paulo, o santista Silvaldo Leung Vieira, então com 22 anos, foi recrutado pelo Dops (Departamento de Ordem Social e Política) para uma de suas primeiras "aulas práticas": o registro do cadáver do jornalista, que havia comparecido espontaneamente ao DOI-Codi, após ter sido procurado por agentes da repressão em sua casa e na TV Cultura, onde trabalhava como diretor de jornalismo. Ele tinha ligações com o PCB (Partido Comunista Brasileiro), mas não chegou a ter atividades na clandestinidade.
"Ainda carrego um triste sentimento de ter sido usado para montar essas mentiras", afirmou Silvado à Folha, por telefone.
Segundo relatos de testemunhas, Vlado, como era conhecido pelos amigos, foi torturado e espancado até a morte. A imagem produzida por Silvaldo ajudou a derrubar a versão do suicídio, uma vez que seu corpo pendia de uma altura de 1,63 m, com as pernas arqueadas e os pés no chão, o que torna altamente improvável que tenha se matado. A morte gerou manifestações, como a famosa missa na catedral da Sé, em São Paulo, e contribuiu para que o presidente Ernesto Geisel e seu ministro Golbery do Couto e Silva vencessem a queda de braço com a linha dura da ditadura, que pedia um aperto na perseguição à esquerda, sob o argumento de que o país vivia a ameaça do comunismo.
Jornal do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo
O jornalista Vladimir Herzog, que foi encontrado enforcado em uma cela, em 25 de outubro de 1975
O jornalista Vladimir Herzog, que foi encontrado enforcado em uma cela, em 25 de outubro de 1975

"Tenho para mim que esses acontecimentos foram a raiz das Diretas-Já", disse à Folha o então governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins, que também tinha atritos com os militares da linha dura.
Silvaldo Leung Vieira também fotografou a cena do "suicídio" de Manoel Fiel Filho, operário que morreu em situação semelhante à de Herzog e cuja morte também foi decisiva para mudar os rumos do regime. Essa imagem, no entanto, nunca apareceu.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Documentos da época da ditadura militar estarão disponíveis na internet

Relatos de tortura em tribunais militares, a forma de investigação da Polícia Militar serão digitalizados e estarão acessíveis no site do Ministério Público Federal em um ano.

 
 

Página por página, os documentos eram microfilmados em uma máquina. O Brasil vivia a ditadura e os processos estavam nas mãos dos militares. Mas os advogados dos réus podiam ter acesso a eles por 24 horas.
Nesse tempo, o pastor Jaime Wright e Dom Paulo Evaristo Arns fotografavam o material para mandar para fora do país. De 1979 até 1985 foi enviado um milhão de cópias para Suíça e Estados Unidos.
Mais de 30 anos depois, serão oficialmente repatriadas em um ato público marcado para amanhã (14).
“Nós temos a coleção completa com todas as páginas, sem nada faltar”, diz Carlos de Almeida Prado Bacellar - coordenador do arquivo público.Relatos de tortura em tribunais militares, a forma de investigação da Polícia Militar e todos os detalhes de mais de 700 processos da época da ditadura começam a chegar ao arquivo público do estado de São Paulo. Eles agora serão digitalizados e estudados. Em um ano vão estar no site do Ministério Público Federal. Acessíveis a todos que têm internet.Com a democracia, os documentos tornaram-se públicos, mas quem quisesse consultar tinha de recorrer ao Superior Tribunal Militar, em Brasília. Vai ficar muito mais fácil.
“Processos que foram movidos contra frei Betto, contra em face da atual presidente da República, processos que foram relacionados aos frades dominicanos como um todo. Eles revelam o modo de operação da repressão. Então acho que isso é importante salientar. O que está nesses processos, não é a verdade absoluta. É a versão dos fatos que foi dada pela ditadura militar”, fala o procurador-regional da República, Marlon Alberto.

sábado, 11 de junho de 2011

Encontrada menina da foto que virou símbolo de desgaste da ditadura

Rachel Clemens, na época com cinco anos, recusou cumprimentar o general João Baptista Figueiredo. A foto foi publicada em vários jornais e revistas, no Brasil e no exterior.

 
 


Belo Horizonte, setembro de 1979. O general João Baptista Figueiredo - último presidente do regime militar - fazia uma viagem com cara de campanha.
Tomou cafezinho em um bar no centro, fez discurso. Estava tudo indo conforme o planejado até que uma menina de apenas cinco anos surpreendeu o presidente-general. Ela rejeitou o cumprimento do general.
A foto imediatamente virou símbolo da luta contra a ditadura. Foi publicada em vários jornais e revistas, no Brasil e no exterior.“Aquilo ali lavou a alma da nação. Pra nós soou como uma vingança nacional”.
“É a magia da criança. Se fosse um adulto não teria, nunca teria o mesmo valor”, diz o ex-secretário nacional de Direitos Humanos, Nilmário Miranda
Foi a foto mais famosa do fotógrafo Guinaldo Nicolaevsky. Mas ele morreu em 2008 sem conhecer a garota. “Ele ficou um pouco frustrado de não ter conhecido a garota. Saber quem era ela, como ela estava”, diz a viúva de Guinaldo, Sílvia Nicolaevsky.Os amigos também tentaram encontrar a menina. Fizeram até campanha em blogs na internet meses antes da morte de Guinaldo.“Minha ideia era mais fazer uma homenagem ao Guinaldo. Pela carreira brilhante que ele teve”, diz o fotografo Ricardo Medeiros.
A iniciativa virou notícia e reascendeu a curiosidade em torno da foto. A foto foi feita no Palácio da Liberdade em Belo Horizonte e 32 anos depois, nós voltamos ao local porque o Jornal da Globo localizou a garota da foto.Rachel Clemens cresceu em Belo Horizonte, se formou em comércio exterior, fez pós-graduação no Instituto Tecnológico da Aeronáutica e morou e trabalhou em vários países, teve uma filha de nome Clara, que hoje está com 13 anos, e nunca teria descoberto essa história toda se não fosse por um email.“Minha mãe recebeu um powerpoint das 100 fotos que marcaram o século. Eu sempre tive curiosidade de ver essa foto. Dei um Google aí que eu vi que estavam me procurando tem um tempão, não tinha a menor ideia”, conta.Perguntada sobre como ela se encontrou com o general Figueiredo, Rachel lembra que, na noite anterior, o pai dela comentou no jantar que iria almoçar com o presidente.“Aí acordei no outro dia de manhã: mãe, eu quero falar com o presidente”. Ela insistiu tanto que a mãe a levou ao Palácio da Liberdade. Quando ela chegou lá:
“Virei pra ele: você sabia que você vai almoçar com meu pai hoje? Aí todo mundo ficava assim: dá a mão pra ele, dá a mão pra ele. Eu detestei. Detesto que me mandem fazer as coisas. Não dei a mão porque eu não queria dar a mão pra ele, eu queria dar um recado pra ele”.Depois do encontro, Rachel foi correndo para a escola e o que ficou foi a imagem da menina que recusou a mão do general-presidente. Para quem admira a foto desde aquela época, a história de Rachel não diminui a importância da imagem.
“Ela pode dizer que não era nada disso. A imagem é muito mais significativa de um momento político que o Brasil vivia”, fala o cineasta Silvio Tendler.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Ex- ministro Jarbas Passarinho: "Nunca pude suportar Jair Bolsonaro"

Para o ex-ministro Jarbas Passarinho, o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) irrita muito os militares
Para o ex-ministro Jarbas Passarinho, o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) "irrita muito os militares"
Claudio Leal

O repórter pronunciou o nome "Jair Bolsonaro" e, do outro lado da linha, o ex-ministro Jarbas Passarinho abusou do fôlego de 91 anos para bendizer o deputado federal: "Ah, esse homem eu nunca pude suportar!".
Desafeto de Passarinho, Bolsonaro protagoniza uma polêmica comportamental e política desde que declarou seu desapreço por um hipotético namoro de seu filho com uma negra, em entrevista ao programa humorístico "CQC". Provocado por uma pergunta da cantora Preta Gil, filha do compositor e ex-ministro da Cultura Gilberto Gil, o capitão reformado do Exército deu uma pedrada: "Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco, e meus filhos foram muito bem educados e não viveram em um ambiente como, lamentavelmente, é o teu". Bolsonaro responderá a um processo por racismo, movido por 20 deputados.Grudou-se ao congressista de extrema direita o mito de que representa a alma das Forças Armadas. Passarinho pega a contramão e desconstroi o discurso de Bolsonaro. "Ele irrita muito os militares", garante. Para definir seu interlocutor ideal, recorre, ora vejam só, à escritora francesa Simone de Beauvoir.
- Já tive com ele (Bolsonaro) aborrecimentos sérios. Ele é um radical e eu não suporto radicais, inclusive os radicais da direita. Eu não suportava os radicais da esquerda e não suporto os da direita. Pior ainda os da direita, porque só me lembram o livrinho da Simone de Beauvoir sobre "O pensamento de direita, hoje": "O pensamento da direita é um só: o medo". O medo de perder privilégios.Ex-ministro do Trabalho, da Educação e da Previdência no regime militar, além de ocupar o ministério da Justiça no governo democrático de Fernando Collor, Jarbas Passarinho presidiu o Congresso Nacional e personalizou uma parcela dos militares moderados. No governo Costa e Silva (1967-1969), ele participou da reunião do AI-5, marco da restrição às liberdades individuais no País, em dezembro de 1968. Adiante, no governo Médici (1969-1974), foi o primeiro ministro militar - na realidade, um híbrido, com carreira civil - a admitir, publicamente, a existência de tortura, em entrevista ao repórter Reali Júnior.Conhecido por sua habilidade para o diálogo com a esquerda e a direita na ditadura, o tenente-coronel reformado vive atualmente em Brasília e passou por problemas de saúde em 2009 e 2010. Depois de um ano de repouso, voltou a escrever artigos para a imprensa. Nesta entrevista a Terra Magazine, aceitou falar, a contragosto, daquele que Nelson Rodrigues poderia chamar de "personagem da semana": Jair Bolsonaro, um homem que ele nunca conseguiu suportar.

Terra Magazine - O que o senhor acha da polêmica de Jair Bolsonaro? Ele sempre diz que representa os militares. Isso é real?
Jarbas Passarinho - Nem todos os militares estão ligados a ele, mas como ele é o único que aparece falando... Os militares, inclusive depois do meu silêncio por doença, perderam espaço. Eu perdi meu espaço no "Estado de S. Paulo", no "JB" (Jornal do Brasil), que infelizmente faliu, no "Correio Braziliense", no "Estado de Minas". Então, desapareceu essa voz que tinha uma penetração na área mais nobre da mídia. Ele irrita muito os militares também, porque quando está em campanha, em vez de ele ir ao Clube Militar, como oficial, ele vai pernoitar no alojamento dos sargentos (risos). Pra ganhar a popularidade dele. Quando eu fui ministro da Justiça, recebi a visita de uma viúva de um brigadeiro de quatro estrelas. Ela era pensionista, portanto. Sabe que a pensão dela, naquela ocasião, no governo Collor, era o que um cabo recebia na ativa? O Collor me autorizou a tentar fazer uma modificação daquilo, pra ter pelo menos um pouco mais de dignidade. Ele (Bolsonaro) me viu fazendo isso. Ficou calado, veio com a esposa dele lá do Rio (de Janeiro), e em seguida ele foi pra tribuna e deu aquilo como projeto de lei dele. Por aí tu vês qual é a pessoa.
No programa do CQC, ele disse que considerava uma "promiscuidade" um hipotético namoro do filho dele com uma negra, e atacou os homossexuais.
Se alguém me procurar sobre isso, eu me recuso a dar opinião. Recuso porque eu tenho por ele uma verdadeira idiossincracia. Foi mau militar, só se salvou de não perder o posto de capitão porque foi salvo por um general que era amigo dele no Superior Tribunal Militar (STM). O ministro (do Exército), que era o Leônidas (Pires Gonçalves), rompeu com esse general por causa disso (em 1986, Bolsonaro liderou um protesto pelo aumento do soldo dos militares). Ele começou a se projetar quando aluno da escola de aperfeiçoamento de capitães. Deu uma entrevista falando dos baixos salários que nós recebíamos.
Quem era o general que o apadrinhava?
Já morreu. Comandou o II Exército, um general de muito respeito entre nós todos.
E o Bolsonaro...
Todos se aproveitam, usam como um modo de currículo. Com base nesse currículo, recebem votos.
As ideias de Bolsonaro são representativas para a maior parcela das Forças Armadas?
Não tem. Alguns sujeitos (apoiam), mas é raro. Tem um jornal mineiro, chamado Inconfidência de Minas... É o único grupo ativo de militares da reserva. Então, pela primeira vez ele pôs um artigo lá. Daqui a pouco, nem isso ele põe. Porque o pessoal recebe com restrição. Agora, claro que não vai botar contra ele.
Ele causa mal-estar nas Forças Armadas?
Não posso dizer isso, porque seria uma opinião pessoal. Ele já teve um aborrecimento comigo. Um cadete meu, que depois foi paraquedista e fez parte da luta contra a guerrilha do Araguaia, Lício Maciel, que esteve à morte, uma guerrilheira atirou na boca dele... Quase foi o fim. E o Lício Maciel foi na conversa do Bolsonaro, que o levou para uma sessão (no Congresso). Ele entrou e levou o Lício, que foi na conversa dele e começou a dizer: "(José) Genoíno, você tenha a coragem de dizer aqui na minha frente que foi torturado... Você mente! Você foi preso por mim, pelo meu grupo". Depois eu soube, por uma mulher da esquerda, que ele (Genoíno) confessou que lá ele não foi torturado, mas depois.
Então, Bolsonaro submeteu esse rapaz a um vexame, porque ele entrou numa sessão do Congresso. Eu escrevi um artigo e mostrei a total imprudência e irresponsabilidade do deputado. Submeter um oficial brilhante, digno, que tinha exercido sua atividade contra a guerrilha sem nunca ter participado de uma violência física, e ao contrário, sofreu, para depois ser expulso de uma sala da maneira vergonhosa como foi!... Ele escreveu para o "Correio Braziliense" me metendo o pau. Era a primeira vez que ele tinha coragem, depois de tantos atritos. Ele (Bolsonaro) me insultou, dizendo que eu era um escondido da esquerda, um infiltrado, não sei o quê. E mais ofensas de natureza pessoal. O "Correio" não publicou. Ele ficou indignado. Eu não gosto nem de falar sobre ele, porque tudo isso vem à mente.

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