sexta-feira, 7 de outubro de 2011

EDUCAÇÃO FALIDA-Que ensino é esse?

Jorge Portugal
De Salvador (BA)


(foto: Francisco Stuckert/ Futura Press)

Costumava, em todo início de ano, logo na primeira semana de aula, fazer um investigação sumária sobre o nível de informação dos meus alunos de redação. Nada que exigisse metodologia complicada, tabelas e complexidades estatísticas, nada disso. A avaliação consistia na apresentação de alguns itens expressos por nomes, fórmulas, frases, siglas, representativos do patrimônio cultural da humanidade em épocas distintas e que, em tese, qualquer ser humano, pretendente a uma carreira no nível superior de ensino, deveria conhecer. Algumas referências da lista: OMC, BIOÉTICA, "PENSO; LOGO EXISTO", OS NOMES DE TRÊS MINISTROS DO GOVERNO DE ENTÃO e SUAS RESPECTIVAS PASTAS etc.
Pois bem. Era de se esperar que a garotada cevada de informações nos melhores colégios de Salvador, a preços que ficam na média de R$1.500, tirasse de letra um elenco de atualidades tão óbvias.
Qual nada! Havia turmas em que 55% dos estudantes não sabiam dizer uma palavra sequer sobre qualquer um dos itens apresentados! Na maioria dos que o faziam, a resposta era sempre superficial, limitando-se, no caso das siglas, a "traduzir" o que elas significam. Relacionar algum dos itens com a sua realidade? Dizer o quanto, por exemplo, uma decisão da OMC podia afetar o seu dia-a-dia de jovem da periferia capitalista? Nem pensar! Em compensação, esses garotos e garotas tinham , na ponta da língua, o caminho para resolver todas as complicações dos NÚMEROS COMPLEXOS, discorriam soberanamente sobre as TRÍADES DE DÖBENREINER, e conheciam profundamente o CICLO DE VIDA DAS ANGIOSPERMAS. Informações que, a depender da carreira escolhida, ele jogaria na lata do lixo no primeiro dia de universidade. Caso se perguntasse qual a conseqüência da queda dos juros no padrão de vida de sua família - coisa que afeta seu cotidiano imediato - eles não saberiam responder.
Não admira que esses estudantes, transformados em candidatos ao Enem, exibissem um número médio de acertos que mal chega a 50% da prova. Por quê? Pelo simples fato de que esse exame vale-se de uma prova que investiga competências e habilidades e não apenas capacidade de memorizar dados. Uma prova que pede um olhar sintonizado com a contemporaneidade dos fatos científicos e a relação destes com a nossa vida. E a escola que nós temos, infelizmente, não prepara nossos jovens para, inteligentemente, "ligarem as coisas".
Pergunta para reflexão: que sistema de ensino é esse que premia a "decoreba", cria um programa de cultura inútil que massacra a cabeça da garotada e não deixa espaço na mente do aluno para a inteligência e a reflexão? O debate sobre o futuro do País passa por aí.

Jorge Portugal é educador, poeta e apresentador de TV. Idealizou e apresenta o programa "Tô Sabendo", da TV Brasil.

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