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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Início da turnê de João Gilberto é adiado mais uma vez

Novo baque na turnê de João Gilberto: o show que ele faria em Salvador, agendado para esta sexta-feira, está cancelado. Os organizadores não deram uma explicação para o cancelamento e afirmam que uma nova data será definida em janeiro. A informação é da coluna de Mônica Bergamo, publicada na Folha desta quarta-feira.O show na Bahia marcaria a estreia da turnê dos 80 anos do cantor. Os shows de São Paulo e Rio, que ocorreriam em novembro, foram remarcados, para os dias 18 e 21 deste mês. Até ontem, estavam confirmados.
No primeiro adiamento, a produção alegou que João Gilberto estava gripado.

Rafael Andrade/Folhapress
Músico João Gilberto durante apresentação no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 2008
Músico João Gilberto durante apresentação no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 2008
Tristeza por encalhe de ingressos piorou gripe de João Gilberto
 
O estresse de João Gilberto diante do encalhe dos ingressos de seus shows em SP, Brasília e outras capitais teria "potencializado" a gripe do cantor, de acordo com pessoas próximas de sua família. Mais de mil entradas encalharam, só em São Paulo, o que teria deixado João "tristíssimo".
Sem patrocinador, a produção se desorganizou e teria faltado recursos para pagar um jatinho particular para que o cantor, aos 80 anos, se deslocasse com mais conforto de uma cidade a outra.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Ídolo Caído-Tristeza por encalhe de ingressos piorou gripe de João Gilberto

O estresse de João Gilberto diante do encalhe dos ingressos de seus shows em SP, Brasília e outras capitais teria "potencializado" a gripe do cantor, de acordo com pessoas próximas de sua família. Mais de mil entradas encalharam, só em São Paulo, o que teria deixado João "tristíssimo".
Sem patrocinador, a produção se desorganizou e teria faltado recursos para pagar um jatinho particular para que o cantor, aos 80 anos, se deslocasse com mais conforto de uma cidade a outra.
A informação é da coluna Mônica Bergamo, publicada na Folha desta segunda-feira.
Rafael Andrade - 24.ago.08/Folhapress
João Gilberto ficou "tristíssimo" com encalhe de ingressos para suas apresentações
João Gilberto ficou "tristíssimo" com encalhe de ingressos para suas apresentações

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Turnê de 80 anos de João Gilberto será registrada e lançada em DVD

  • João Gilberto se apresenta no Teatro Municipal do Rio de Janeiro (24/08/2008) João Gilberto se apresenta no Teatro Municipal do Rio de Janeiro (24/08/2008)
A nova turnê de João Gilberto, "80 anos - Uma Vida Bossa Nova”, será registrada e lançada em DVD com distribuição mundial, fato inédito na carreira do músico. A informação foi confirmada pela assessoria da excursão, que passará por cinco capitais brasileiras em outubro e novembro. 
A volta aos palcos de João Gilberto está confirmada para as seguintes datas: 
- 28/10: Salvador, no Teatro Castro Alves;
- 05/11: São Paulo, Via Funchal;
- 15/11: Rio de Janeiro, no Theatro Municipal
- 19/11: Brasília, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães;
- 25/11: Porto Alegre, no Teatro Sesi. 
Além dessas datas, outros shows extras podem ser marcados. Os preços dos ingressos e início de vendas ainda estão em negociação e serão divulgados em breve.
O repertório da turnê, orçada em R$ 8 milhões, terá clássicos já cantados por João Gilberto e canções inéditas que ainda serão definidas por ele. Como já havia sido anunciado, os shows poderão contar com participações especiais de artistas nacionais e internacionais, entre eles Eric Clapton e Jon Hendricks.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Rita Lee relembra show na TV com "oitentão" João Gilberto

Ao celebrar os 80 anos de João Gilberto, completados nesta sexta-feira, a cantora Rita Lee, em uma entrevista exclusiva à TV Folha, comenta o dia em que foi convidada pelo músico para um dueto.
A apresentação, feita em um especial da Rede Globo, resultou numa impagável versão de "Jou Jou Balangandãs", de Lamartine Babo.
"Não houve ensaio. [...] Mas a gente cantou e deu tudo certo", relembra Rita Lee na entrevista.

No aniversário de 80 anos de João Gilberto, crítico comenta disco a disco a carreira do artista baiano

RONALDO EVANGELISTA
Colaboração para o UOL
  • João Gilberto se apresenta no Teatro Municipal do Rio de Janeiro (24/08/2008) João Gilberto se apresenta no Teatro Municipal do Rio de Janeiro (24/08/2008)
Em 50 anos, foram onze álbuns gravados em estúdio e metade desse número de discos ao vivo - cinco e meio. Menos de 17 discos de registro do som que tanto impacto causa na música há 50 anos: a voz e violão de João Gilberto. Nesta sexta-feira (10), em que João Gilberto completa 80 anos de vida, o assombro e a influência que sua arte ainda inspiram são os mesmos de quando lançou “Chega de Saudade”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, em 1959. João Gilberto já sabia tudo: constantemente reinventando e evoluindo suas canções e interpretações, toda sua obra é lida como a evolução de uma sonoridade única, elaboradamente simples e infinitamente sofisticada.Leia sobre cada um dos discos de João: do primeiro, lançado em 1959, até o mais recente, de 2004.
"Chega de Saudade" (1959)
Depois de participar do disco “Canção do Amor Demais” (de Elizeth Cardoso) e lançar dois 78 rotações em 1958, João Gilberto chegou à modernidade dos LPs ajudando a inventá-la. A voz íntima do ouvido, o som de violão absolutamente claro, a abordagem ao mesmo tempo casual e lapidada: eram muitos elementos novos que somavam àquele núcleo de criação exemplar. Além da remodernização de antigos sambas da década de 40 - um Dorival Caymmi, um Marino Pinto, dois Ary Barrosos -, contribui muito com o sabor de novidade a presença do produtor Tom Jobim, com três canções, seus pianos discretos e seus arranjos cheios de pequenos detalhes nas cordas e sopros, como contracantos de João.Grande momento: “Morena boca de ouro”, releitura de um sucesso de 1941 de Ary Barroso, na voz de Silvio Caldas, aqui com o piano de Tom Jobim e a economia do arranjo impressionantes até hoje.
"O Amor, o Sorriso e a Flor" (1960)

O segundo LP de João Gilberto já começava ousado na capa, em preto-e-branco solarizado, criada por Cesar Vilela, que em breve faria as famosas capas da gravadora Elenco. Gravado pouco mais de seis meses depois do primeiro disco, e novamente com direção musical de Tom Jobim, o álbum trazia no repertório seis novas canções do produtor, mais um Caymmi e um antigo sucesso nunca gravado do tempo de conjuntos vocais: “O Pato”.Grande momento: Abrindo com vocalises que reinventam as harmonias da versão original do conjunto vocal Anjos do Inferno, de 1945, “Doralice”, de Caymmi, ganha versão definitiva com João Gilberto, em nada além de um minuto e 29 segundos. De acompanhamento, além de seu violão e leve percussão, a modernidade do piano delicado e cristalino de Tom Jobim e breves comentários da flauta no contraponto.
"João Gilberto" (1961)
No mesmo fôlego, um ano depois foi gravado o terceiro LP, homônimo, de João Gilberto. Em algumas faixas, acompanhado do conjunto do pianista Walter Wanderley, todo o resto novamente com Tom. Além de três novas do produtor, o repertório continua lembrando antigos sambas dos anos 40, desta vez com dois Caymmis, um Geraldo Pereira e um Bide/Marçal.Grande momento: “A primeira vez”, samba de Bide e Marçal cantado por Orlando Silva em 1939, surge em versão quase invertida: o volume do original é traduzido em arranjo quase solo de voz-e-violão, apenas com o piano ocasional de Tom.
"Getz/Gilberto" (1964)
E então, o mundo descobriu. Gravado em Nova York ao lado do saxofonista Stan Getz (e com Tom ao piano), o álbum foi lançado pela gravadora de jazz Verve e se tornou famoso em todo o planeta, ganhando cinco prêmios Grammy. Cantada pela mulher de João, Astrud, “Girl from Ipanema” saiu em single e vendeu mais de um milhão de cópias - a canção se tornou uma das mais regravadas da história.
Grande momento: O máximo de sublime de João em disco se revela em sua interpretação de “Pra machucar meu coração”, do então recém-falecido Ary Barroso, que João muito admirava e havia acabado de conhecer. Perfeição no piano de Tom, sax de Getz, baixo e bateria de Tião Neto e Milton Banana, e João, no seu mais suave e musical.
"Getz/Gilberto II" (1964)
O primeiro disco ao vivo de João, gravado no Carnegie Hall em outubro de 1964, lado B de um LP com Stan Getz do outro. Na versão em CD, cinco faixas bônus trazem João e Getz juntos, com Astrud.
Grande momento: Apesar de não manter a aura de magia do encontro em estúdio, “Você e eu” ao vivo é mais um interessante encontro do violão ritmado do João com o sax jazzístico de Getz e a voz vaporosa de Astrud.
"En Mexico" (1970)

Gravado durante temporada de João Gilberto no México, como já fica claro no título, o álbum só foi gravado seis anos depois do último, e desta vez com arranjos de Oscar Castro Neves. Entre as novidades do repertório, três boleros, dois Jobins, duas autorais sem letra e uma composição de seu amigo João Donato gravada dois anos antes por Sergio Mendes: “The Frog”.
Grande momento: João canta tão próximo do microfone que sua respiração funde-se com sua voz com inigualável efeito de intimidade com o ouvinte em “Astronauta” (também conhecida como “Samba da pergunta”), só com seu violão, piano pontuando e etéreas cordas ao fundo.
"João Gilberto" (1973)
O auge do minimalismo zen de João, gravado novamente em Nova York. Desta vez acompanhado apenas do percussionista Sonny Carr e, em uma faixa, da voz de sua então nova esposa, Miúcha. Além de um Jobim, três faixas sem letra e mais alguns sambas antigos, a grande novidade são canções de Caetano Veloso e Gilberto Gil.Grande momento: É irresistível acompanhar as harmonias vocais que João cria em contracanto com Miúcha em “Isaura”, sua versão do samba de 1945 de Francisco Alves. João, virtuose dos detalhes.
"Best of Two Worlds" (1976)
Com repertório baseado no chamado “álbum branco”, de três anos antes, traz novo encontro com Stan Getz, mais de dez anos depois do “Getz/Gilberto” original. Duas faixas são cantadas solo por Miúcha e uma novidade do repertório é “Retrato em Branco e Preto”, parceria do irmão da noiva, Chico Buarque, com Tom Jobim.Grande momento: Cantada com serenidade e emoção por João, “Ligia” é uma novidade de Tom Jobim até hoje: João canta a primeira versão da letra, diferente da que depois ficou mais conhecida, com retoques de Chico Buarque. Getz aparece com dois solos dobrados, sobrepostos com melodias diferentes.
"Amoroso" (1977)
Trazendo composições em inglês, italiano e espanhol e arranjos de orquestra do alemão Claus Ogerman - que havia cuidado da orquestra nos discos solo de Tom Jobim -, “Amoroso” foi desde seu lançamento recebido como momento de gala para João e é até hoje um dos álbuns mais conceituados entre jazzistas.
Grande momento: Não é nem preciso entender a letra em italiano de “Estate” para ficar tocado com sua sensibilidade. Lendo-se, então, o “verão que criou nosso amor” e agora é um “legado de dor”, emocionante.
"João Gilberto Prado Pereira de Oliveira" (1980)
Segundo disco ao vivo de João, de um especial de TV da Rede Globo com plateia, orquestra e participações de sua filha Bebel Gilberto (então com 14 anos) e Rita Lee. Johnny Alf e Lamartine Babo são surpresas do repertório.
Grande momento: Antiga marchinha de 1939 de Lamartine Babo, cantada por Mário Reis em dueto com Mariah, vira pura bossa com a voz da tropicalista Rita Lee, interpretações em pura doçura.
"Brasil" (1981)
Gravado com Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia: o violão de João, comentários dramáticos nas cordas e percussões e as quatro vozes se fundindo - Bethânia canta suave como nunca antes ou depois. Quase um disco conceitual sobre a Bahia, com versões de Caymmi, Ary Barroso e, novidade, Os Tincoãs.
Grande momento: Versão do standard americano “All of me” pelo letrista Haroldo Barbosa, “Disse alguém” é uma pérola, com João fazendo uma adaptação jazzística da sua batida ao violão, pequenas alterações na melodia e toda uma nova cor nas imagens em português.
"Ao Vivo em Montreux" (1986)
Terceiro disco ao vivo e um dos melhores momentos de João no palco, foi gravado - todo de voz e violão - no famoso festival de jazz suíço em 1985 e lançado em LP duplo, depois CD simples com duas músicas a menos.Grande momento: O antigo sucesso de 1948 de Haroldo Barbosa na voz d’Os Cariocas, “Adeus América”, ganha todo um novo contexto na voz mântrica de João Gilberto, que tanto tempo morou nos Estados Unidos e havia retornado ao Brasil há pouco.
"João" (1991)
Com arranjos de cordas do americano Clare Fischer sobre a base de violão e voz de João, o disco não atinge os mesmos níveis de Amoroso, mas tem ótimo repertório, com Noel Rosa, Cole Porter, bolero, chanson.Grande momento: João parece ter total controle sobre como fazer o tempo parar, andar para frente ou para trás em seus ritmos de violão e andamentos vocais. Em “Eu sambo mesmo”, de Janet de Almeida, cantada pelos Anjos do Inferno em 1946, o sublime é atingido já nos primeiros segundos.
"Eu Sei Que Vou Te Amar" (1994)
O quarto disco ao vivo de João e o mais sem graça, com mixagem imperfeita, edição brusca e repertório sem surpresas. “Você não sabe amar” é boa surpresa.
Grande momento: “Lá vem a baiana”, de Caymmi, sempre perfeito na voz de João.
"Live at Umbria Jazz Fest" (1996/2002)
Quinto disco ao vivo de João, gravado na Itália em 1996 e lançado em CD em 2002. Mais atualizações de canções de todas as fases da carreira de João.
Grande momento: “Isto aqui o que é?”, de Ary Barroso, tão conhecida e sempre tão nova com João.
"Voz e Violão" (1999)
Produzido por Caetano Veloso, foi o último de estúdio gravado por João e o único inteiramente só de voz e violão. O repertório recupera sambas antigos de Bororó, Herivelto Martins, uma raridade de Tom Jobim, dois Caetanos e novas lapidações de “Chega de saudade” e “Desafinado”, cada vez mais sintéticas.
Grande momento: Dessa vez João Gilberto não foi tão longe, apenas 1980, para encontrar uma maravilha. “Você vai ver” foi lançada no álbum Terra Brasilis, de Tom Jobim, como uma elegante canção de fim de amor, aqui transformada em pura candura.
"In Tokyo" (2004)
País que cultua João Gilberto talvez até mais que o Brasil e recebe visitas frequentes para turnês, o Japão rendeu o mais recente disco ao vivo de João, sexto de sua carreira. Gravado em 2004, João tinha então 73 anos e faz ótima performance, tranquila e depurada.Grande momento: Aracy de Almeida cantava “Louco” de Wilson Batista em 1946, e desde os anos 50 João a traz em seu repertório, apesar de nunca tê-la gravada em estúdio. Canta ao vivo a história do louco que chora e anda pelas ruas, virando até um vagabundo.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Lobão critica João Gilberto e Chico Buarque em evento literário

MARCO RODRIGO ALMEIDA/FOLHA
ENVIADO ESPECIAL A SÃO FRANCISCO XAVIER (SP)

Teve clima de show de rock, com direito a aplausos e vaias, a mesa com o cantor Lobão na tarde de domingo no Festival da Mantiqueira, em São Francisco Xavier (138 km de São Paulo).
Fazendo jus ao evento literário, o tema do debate seria o livro "50 Anos a Mil", autobiografia que o cantor lançou no ano passado. Foi o mundo da música que, no entanto, rendeu os momentos mais apimentados da palestra. Ao comentar a música "Me Chama", seu principal sucesso, Lobão disse não ter gostado da versão gravada por João Gilberto. "João Gilberto tirou o ritmo de tragédia maníaca de 'Me Chama'. E ele ainda não cantou a parte: 'Nem sempre se vê mágica no absurdo'. Disse que não entendeu essa parte. Se ele tivesse me ligado, eu teria explicado."
Paulo Pereira/Divulgação
O cantor Lobão em palestra no Festival da Mantiqueira (SP)
O cantor Lobão, que criticou João Gilberto e Chico Buarque durante palestra no Festival da Mantiqueira (SP)

Perguntado se achava João Gilberto "chato", Lobão respondeu que ele é "um amor de pessoa. O problema é que ele virou um ser sagrado. Nós temos que destronar tudo o que é sagrado".
Depois, ironizou canções de Chico Buarque (como "O Que Será") e jogou farpas na música brasileira em geral. "A dita MPB é de uma mediocridade galopante." Algumas vaias, ainda que tímidas, surgiram quando Lobão definiu a esquerda como "coisa de gente rancorosa e invejosa". Em outro momento, o cantor reclamou que há um "excesso de vitimização na cultura brasileira". "Essa tendência esquerdista vem da época da ditadura. Hoje, dão indenização para quem sequestrou embaixadores e crucificam os torturadores que arrancaram umas unhazinhas", completou.
O jornalista MARCO RODRIGO ALMEIDA viajou a convite do festival

sexta-feira, 25 de março de 2011

EMI "amesquinhou" obra de João Gilberto, diz laudo de Paulo Jobim

Claudio Leal/TERRA


Arrastado há 14 anos, e emperrado no STJ (Superior Tribunal de Justiça), o processo do músico João Gilberto contra a gravadora britânica EMI, detentora do catálogo da extinta Odeon, está respaldo por laudos técnicos do músico Paulo Hermanny Jobim (filho do maestro Antonio Carlos Jobim) e do compositor Caetano Veloso, que atestam as "adulterações" e "deformações" na mixagem de três discos clássicos da Bossa Nova - "Chega de Saudade" (1959), "O Amor, o Sorriso e a Flor" (1960) e "João Gilberto" (1961), atualmente fora do mercado, à exceção das cópias piratas. Em 1992, a EMI reuniu os três LPs e o EP "Orfeu da Conceição" num único CD, "O Mito", à revelia de João Gilberto. O músico protestou contra o fim da "sequência harmônica" das faixas e apontou defeitos na remasterização. As tentativas de acordo fracassaram. O músico entrou com uma ação de danos morais e materiais.
Terra Magazine teve acesso aos autos e reproduz parte do laudo técnico de Paulo Jobim, indicado pela 28ª Vara Cível do Rio de Janeiro para realizar a perícia em 1999. Na infância, ele chegou a assistir uma das gravações de João Gilberto no estúdio da Odeon, quando Tom Jobim era o diretor artístico da gravadora. Em "Chega de Saudade - A história e as histórias da Bossa Nova", o escritor Ruy Castro relata os bastidores do primeiro disco.
"Z. J. Merky, o severo diretor-técnico da gravação, olhou feio do outro lado do vidro quando João Gilberto pediu dois microfones: um para a voz, outro para o violão. Onde já se vira isto?", conta. "A Odeon era britânica no seu controle acionário e mais britânica ainda - mão fechada - no seu controle de custos: cantores estreantes e desconhecidos não tinham direito a luxos. Mas a carta branca de Aloysio (de Oliveira, diretor geral) funcionou, e os dois microfones surgiram." O livro de Ruy Castro oferece minúcias das exigências profissionais de João Gilberto, as quais servem para entender o aborrecimento do músico com a mixagem realizada pela EMI, décadas mais tarde. "Gravando direto com a orquestra, ao vivo no estúdio, sem playback, ele interrompia take após take, ouvindo erros dos músicos que escapavam aos outros, e obrigando a orquestra inteira a tocar de novo. Em certos momentos, era como se todo mundo no estúdio fosse surdo, menos ele", descreve o biógrafo. João Gilberto revelou ao amigo Aderbal Duarte um conselho dado por Ary Barroso, nos corredores da Odeon, em julho de 1958: "Faça exatamente o que você quer!". Pouco antes, na mesma gravadora, Ary e Dorival Caymmi haviam registrado um disco em parceria. Como até Stan Getz comprovaria, não era preciso recomendar autenticidade ao mago da Bossa Nova.

"EMI amesquinhou a obra de João Gilberto"
O embate João Gilberto x EMI envolve, além da eterna briga da voz do dono com o dono da voz, a preservação da memória musical brasileira. Na imprensa, o folclore do músico motiva mais parágrafos do que a permanência de sua obra. "Acho isso uma doideira, uma hora deram razão, mas mesmo assim a gravadora não precisava corrigir, o que é facílimo. Não sei por que esse processo ainda existe. Eles têm uma maneira de corrigir, podem tirar o som original. Fico com pena", lamenta Paulo Jobim, em conversa com a Terra Magazine."A obra de João tem um equilíbrio entre violão e voz, o som já sai mixado. Ele sabe botar a altura certa e trabalha o violão como se fosse uma orquestra", define o professor Aderbal Duarte, estudioso da obra de João Gilberto e da batida da Bossa Nova. Uma das testemunhas do compositor no processo, Duarte se revolta com o resultado de "O Mito". "Aquilo é um absurdo. Na música erudita, você tem quatro movimentos. Se tiram um movimento, é sinfonia inacabada. João é mais uma das vítimas da truculência das gravadoras. Ele tem uma consciência total, fantástica, é uma piada fazer isso", ataca.
No laudo, Paulo Jobim responde a questões técnicas levantadas pelas partes. Ele trabalhou como músico e arranjador em discos de Tom Jobim, Chico Buarque, Sarah Vaughan e Milton Nascimento, entre outros. Seu parecer reforça, com palavras duras, as queixas de João Gilberto. "Sim, mutilou no sentido de deformar a voz do artista, depreciar e amesquinhar a obra e, no caso do 'medley' com as músicas do 'Orfeu', no sentido de cortar literalmente parte das faixas", afirma Jobim. Em outro momento, ele esclarece detalhes da mixagem: "Da leitura dos laudos da firma americana Oncore e de Ricardo Garcia (técnico indicado pela EMI), duas coisas já ficam claras e coincidem com a minha avaliação do CD 'O Mito', objeto da discussão destes autos: houve a adição de reverberação (Eco) estéreo nas faixas mono do LP 'Chega de Saudade' e houve uma forte equalização acentuando as frequências agudas em todas as faixas".
Assistente técnico da defesa, Caetano Veloso acolhe a perícia de Jobim e ressalta os "incalculáveis prejuízos" ao músico. "Como os referidos LP's e Compacto representam, no meu entender, o ponto culminante da música popular brasileira moderna (e a mais importante mirada na nossa tradição), considero urgente uma solução do problema no sentido de devolver aos ouvintes essas obras na integridade de sua beleza e força cultural", pede Veloso em seu "laudo crítico".
Apesar das análises de Jobim e de Caetano, a juíza da primeira instância, Maria Helena Pinto Machado Martins, não atendeu ao pedido de danos morais e rejeitou o fim da comercialização; como justificativa, ela aponta a "sensibilidade extremada" de João Gilberto. "Em que pese o teor da prova acima e, em especial, da prova técnica, entende este Juízo que situação apontada nos autos escapa a esfera do homem comum, tratando-se de sensibilidade extremada e, por isto, não restariam configurados de forma patente os danos de cunho moral", diz a sentença. Desde março de 2009, o recurso especial está para ser julgado pelo ministro do STJ, Sidnei Beneti. Em entrevista, a advogada e diretora de Business Affairs da gravadora EMI no Brasil, Ana Tranjan, afirmou que a fase de negociações estava suspensa. "O processo está terminando, na última fase da instância judicial, em Brasília. Na verdade, o ritmo não é o que se deseja, mas faz parte. Nós estimamos, como já vínhamos estimando, que este ano haja uma solução final para essa questão", disse.
Em 2011, João Gilberto completa 80 anos sem o anúncio de um show comemorativo nem a certeza de uma solução para o impasse judicial que retirou seus discos clássicos das prateleiras. Não há paz, não há beleza.

***

Confira trechos do laudo de Paulo Jobim.
Equalização
"O efeito prático desta equalização foi o total desequilíbrio da mixagem original, realçando a bateria e as cordas em detrimento da voz e do violão, que deveriam ser exatamente o centro das atenções. Se tal equalização fosse aplicada a uma peça complexa com orquestra, por exemplo, 'A sagração da primavera', de Igor Stravinsky, o resultado seria uma outra música, com o trabalho de interpretação e equilíbrio do maestro jogado fora". (...)
"Além disso, essa equalização tão violenta chegou a alterar o timbre da voz do cantor, tornando-a muito metálica e dura."
Matrizes
"Eu acho que diante de Matrizes tão boas e históricas como essas, o melhor seria manter o som original. SEM MEXER!!".
Reverberação
"A mistura de todas as faixas também deturpa a obra, pois um disco é pensado como um conjunto de obras relacionadas. Historicamente também se perde a trajetória do artista a cada disco. Se as obras estivessem juntas como no original, não haveria tal incompatibilidade citada no laudo de Ricardo Garcia. Eu não acho que haja uma incompatibilidade entre os fonogramas originalmente estéreo e mono, pois as faixas mesmo mono e estéreo, tem uma homogeneidade impressionante, portanto tal feito era inteiramente desnecessário."
"De uma maneira simplista, excetuando-se adição de reverberação que não faz parte de um processo de masterização, sim, o processo era o mesmo e praticamente só a MicroService masterizava e produzia os CDs. Acontece que houve muita masterização ruim em que o resultado era muito pior do que o do LP. Abusava-se de agudos e em alguns casos, como no disco 'Caymmi visita Tom', o conteúdo era totalmente deturpado pela equalização , com o coro aparecendo mais do que os cantores e outras coisas assim. No LP de Antonio Carlos Jobim 'Stone Flower' se chegou a remixar o disco incluindo solos de trombone e partes de flauta que tinham sido retirados na mixagem, num total desrespeito ao artista. O que aconteceu neste disco de João Gilberto não é um caso único. As máquinas podem ser as mesmas mas o problema é como utilizá-las. Reverberação ou Eco não fazem parte de um processo normal de Masterização."
"Matrizes têm qualidade impressionante"
"Como esse processo de masterização pode deformar a obra, seria prudente ter submetido o resultado da masterização ao artista para evitar o que está se passando. Diga-se de passagem que as Matrizes originais, da década de 60 ainda conservam uma qualidade impressionante".
Chega de Saudade
"A meu ver, estes são os três discos mais importantes da nossa música, que levaram nossa música para o exterior, que vendem há mais de 40 anos e que vão continuar a vender para sempre pela importância que têm".

quarta-feira, 2 de março de 2011

Internauta se passa por João Gilberto em perfil do Facebook

MARCUS PRETO/FOLHA/DE SÃO PAULO

"Vou mandar prender! Entende? Vou mandar prender!", repete Otávio Terceiro, agente de João Gilberto, assim que a Folha entra em contato, por telefone.
A ameaça é dirigida ao próprio João. Ou melhor, vai para alguém que, há mais de um ano, se faz passar por ele em perfis do Facebook, em e-mails e até em telefonemas. "No dia em que inventaram o telefone, inventaram também o trote telefônico. Com internet é a mesma coisa", diz Terceiro, que além de empresariar João, é o amigo mais próximo há décadas. João, como se sabe, é a figura mais reclusa da MPB. Não sai de casa, não dá entrevistas, não recebe amigos. Aos 80 anos, é nada verossímil imaginar o cantor frequentando redes sociais. Mas o caso não é tão simples. O João virtual é bem informado demais sobre o João real para ser um qualquer. Desde que inaugurou sua página no Facebook, ele se comunica com músicos como Danilo Caymmi, Jacques Morelenbaum, Mú Carvalho e Daniel Jobim, entre muitos. E aprofundou a relação com vários deles. Roberto de Carvalho, que conheceu João de perto nos anos 1980, em trabalhos que ele fez com sua mulher, Rita Lee, conta: "Ele canta a bola e acontece. Foi assim com os shows cancelados no ano passado e com o lance do despejo. Ele, exatamente como se fosse João, avisou que aconteceriam."
Sérgio Carvalho, que fez direção artística do JG real no disco "João, Voz e Violão" (2000), garante que se trata do próprio. O que confirma, segundo ele, são os detalhes.
"Ele fala sobre coisas que são só nossas", diz. "Quando estávamos gravando o disco, ele me recomendou sua pizzaria preferida. Agora, pela internet, falei que tinha ficado viciado nela. E ele --pumba!-- botou o nome da pizzaria embaixo. Como é que alguém ia saber isso?"

DESABAFO
Foi esse mesmo João Gilberto que procurou, um mês antes, via Facebook, a reportagem da Folha. Queria "desabafar". Estava em crise de pânico, sofrendo muito e dormindo nada, angustiado com a possibilidade de ser despejado do apartamento em que vive há 15 anos, no bairro do Leblon, no Rio.
Mas seria ele mesmo? João Gilberto? "Ele jamais usaria a palavra 'desabafar'", garantiu Claudia Faissol, mãe da filha mais nova do artista. "Olha, em se tratando desta pessoa, tudo é possível. Até mesmo que seja ele de verdade", disse Nelson Motta. "Vai em frente e me conta."
A entrevista ficou marcada para aquela mesma noite, mas teria de ser feita por e-mail. "Não é duvidando de você, mas tenho medo", escreveu o suposto João. "Esse ano que passou, a 'Veja' aprontou uma comigo. Me colocaram de bobo. Então, prefiro que seja por aqui."
Se tudo isso já soava suficientemente surreal àquela altura, a sensação de delírio só aumentou a partir das 22h52, quando começaram a chegar à caixa postal, de meia em meia hora, mensagens assinadas por João Gilberto Prado Pereira Oliveira. De uma conta de Gmail.
VALE TUDO
Foram, ao todo, 11 mensagens, madrugada adentro. Os assuntos variavam entre o despejo, as chuvas que devastaram a região serrana do Rio, futebol, vale tudo, livros, yoga, televisão.
Também falou, é claro, sobre música. "Não sou gênio. Gênio é Einstein, Bach, Jobim, Caymmi, Mozart, Beethoven, Newton. Eu batalhei em cima do meu ofício, que é tocar, tocar, tocar e tocar."
A fluidez com que comentava esses e outros temas, sempre com um estilo tão peculiar de encadear as palavras, levava a crer que era mesmo João do outro lado.
Entre o envio de um e-mail com as perguntas a JG e a chegada de outro com as respostas dele, 30 minutos depois, havia tempo livre para seguir com a investigação.
Notívago como João, Caetano Veloso haveria de estar no computador àquele horário. "Caetano, desculpe o inusitado deste e-mail. É que uma pessoa está trocando mensagens comigo se dizendo João Gilberto. Isso faz qualquer sentido para você?"
Veio a resposta. Caetano nunca havia ouvido falar que João tivesse um e-mail, nem que usasse computador. Quis ver as mensagens.
IGNORANTE E JOVEM
"Pode tirar seu cavalinho da chuva: não é João", cravou Caetano. "O cara faz erros crassos na letra do 'Carnaval da Vitória'. A letra fala de um soldado que lutou na Segunda Guerra. A idade influi para o entendimento dessa canção: quem está escrevendo não conhece a música, é ignorante e é jovem."
E decidiu, ele mesmo, também escrever ao tal João.
"É você mesmo?", duvidava o JG virtual. Mas, apesar da dúvida, pediu ao compositor: "Eu queria, se fosse possível, que você falasse [no jornal] 'O Globo' que não posso sair do apartamento".
Citava os artigos já escritos pelas cantoras Rita Lee e Rosa Passos e pelos jornalistas Ruy Castro e Luis Nassif.
Na sequência, seguiu com a entrevista invertendo a informação: "Caetano acaba de me escrever e-mail prestando solidariedade. Quer saber como poderia ajudar".
Ao final da série e mensagens, já no meio da madrugada, pedi: "Preciso de uma confirmação. Comprovar para minha chefia que você é você mesmo. Um telefonema resolveria. Você me liga?".
Dia seguinte, mesmo horário, toca o telefone. Uma televisão altíssima grita ao fundo. E a voz de uma pessoa de, no máximo, 30 anos (Caetano estava certo), força um sotaque baiano sussurrado: "Sou eu mesmo. João. Pode publicar". Só isso. Desliga. Em quatro semanas, a Folha tentou, por meio de pessoas próximas a ele, entrar em contato com o João real. Impossível. Ele se esquiva de encontrar os oficiais de justiça que querem levar a ação de despejo. E mesmo o porteiro do apartamento diz que ele não mora lá.
"Pelo que conheço, João jamais ligaria para você só para dizer que ele é ele", argumentaria Miúcha, no outro dia. "Esses pequenos detalhes negam, mas não sei dizer. Não acho nada impossível, João é imprevisível."
Essa não foi a única ligação que João, o virtual, fez em sua história. No Natal, telefonou para a casa da mãe de Sérgio Carvalho. Sabia que, naquele horário, a família estaria toda reunida para a ceia. Além de Sérgio, estariam na casa os irmãos Dadi (que conviveu com JG quando integrava a banda Novos Baianos, nos anos 1970), Mú Carvalho e Heloísa Tapajós.
"Não falou nada. Só cantou", diz Heloísa. "Ficamos passando o telefone de um para o outro, até ele desligar. Quer presente melhor?" No que depender da ordem de prisão de Otávio Terceiro, Papai Noel não visitará a família no Natal que vem.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Despejado-Proprietária vai à Justiça para tirar João Gilberto de imóvel

MARCELO BORTOLOTI/FOLHA
DO RIO

O músico João Gilberto, que completa 80 anos em junho, está sendo despejado do apartamento onde mora no Leblon, zona sul do Rio. O pedido judicial foi feito pela dona do imóvel, a condessa Georgina de Faucigny Lucinge Brandolini d'Adda. Segundo seu advogado, ela quer o apartamento de volta em razão do comportamento excêntrico do cantor, que não permite a entrada de ninguém no imóvel. A gota d'água foi o fato de ter colocado restrições ao acesso de pedreiros que iriam consertar uma janela.
"A proprietária é uma pessoa de posses, e não depende deste aluguel para sobreviver. Ela achou um desaforo o inquilino se apropriar desta forma do apartamento, onde passou parte da sua vida", afirma o advogado Paulo Roberto Pereira Mendes.
Georgina de Faucigny mora na Itália e é casada com Ruy Brandolini d'Adda, que tem título de conde .O músico baiano aluga o local há 15 anos, e a vigência do último contrato venceu em julho do ano passado.
A ordem de despejo é fundada em denúncia vazia, instrumento que permite ao proprietário pedir o imóvel de volta sem alegar motivo. A partir do momento em que receber a notificação, o músico tem 15 dias para dizer se vai acatá-la ou refutá-la. João Gilberto é conhecido por viver recluso e deixar pouco o apartamento. Ele costuma pedir suas refeições por telefone e recebe poucas visitas. Quando sai de casa, sempre de taxi, pede que o carro entre na garagem. O cantor, que não tem assessoria de imprensa e rompeu com seu empresário, não atendeu as ligações da Folha. Sua filha, Bebel, não quis comentar o assunto. Segundo o advogado da proprietária, as negociações para que João Gilberto entregasse o imóvel começaram há seis meses. Em princípio ele havia aceitado deixá-lo, mas, em dezembro, avisou que não sairia mais. "Esperamos que tudo acabe rápido e ele se aloje em outro local. Mas pelo jeito isto vai virar uma novela", diz Mendes.

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