terça-feira, 14 de junho de 2011

A Itália teria um "probleminha" com os homossexuais?

Le Monde
Philippe Ridet
Manifestante da parada gay italiana escreve o nome de Lady Gaga nos seios enquanto espera a chegada da cantora
Manifestante da parada gay italiana escreve o nome de Lady Gaga nos seios enquanto espera a chegada da cantora
Cristian Friscina, um jovem de Brindisi (Puglia), pôde ir de carro à Euro Pride de Roma que, no sábado (11), reuniu em uma parada centenas de milhares de gays, lésbicas e transexuais pelas ruas da capital italiana, conduzidos pela extravagante cantora Lady Gaga. “Cadê a notícia?”, vocês diriam. “Seja a pé, de cavalo ou de carro, não muda muita coisa...”. Bem se vê que você não vive na Itália.Isso porque somente na semana passada Cristian Friscina foi autorizado a dirigir um automóvel novamente. Um mês antes, a renovação de sua carta de motorista lhe havia sido negada pelas autoridades competentes. Homossexual declarado, Cristian Friscina foi considerado inapto para dirigir em razão de “graves patologias que poderiam resultar em danos à segurança”.
O caso causou comoção em um país machista por tradição e católico por cultura, onde as humilhações e os atos de violência infligidos diariamente aos homossexuais são frequentes. As associações evidentemente procuraram a ministra da Igualdade de Oportunidades (pari opportunita), Mara Carfagna, que na Itália cuida do direito das mulheres e das minorias sexuais. A ministra, por sua vez, recorreu ao governo central para denunciar “essa discriminação bárbara.” Até que o serviço das carteiras de habilitação de Brindisi voltou atrás em sua absurda decisão.Deve-se deduzir a partir daí que a Itália tem problemas com a homossexualidade e, de maneira geral, com a diferença? É possível, se levarmos em conta que Silvio Berlusconi declarou que “era melhor gostar de mulheres do que ser gay”. É certo, se lembrarmos do deputado europeu centrista Roberto Butiglione declarando que “a homossexualidade é moral e objetivamente má, assim como o adultério”. Isso é risível, se observarmos que uma rede de televisão pública cortou do filme “Brokeback Mountain” todos os beijos entre os dois caubóis, ou que o cantor Povia venceu o Festival de San Remo com uma música na qual afirma que a homossexualidade pode ser “curada”; é alarmante, sabendo que o ministro da Família condena uma propaganda da rede de lojas de móveis Ikea que mostra um casal gay; e é revoltante, quando consideramos que Paola Concia, deputada de centro-esquerda, foi insultada nas ruas de Roma (diante de indiferença quase geral) por andar de mãos dadas com sua companheira.
Os muros do bairro gay de Roma, nos arredores da rua San Giovanni in Laterano, são cobertos frequentemente por pichações do tipo “Froci al rogo” (“À fogueira com os veados”) . Em seu relatório de 2010, a associação italiana Arcigay registrou mais de uma centena de casos de agressão e de violência, de Bolzano até Palermo. E um de seus membros explica: “Além disso, estes são somente a ponta do iceberg, pois por falta de um observatório da homofobia, registramos apenas os casos mencionados na imprensa.”
Mas há muitas coisas que faltam aos gays, lésbicas e transexuais italianos. Um acordo de união civil? Proposto sob o nome de Dico pelo governo de esquerda de Romano Prodi (2006-2008), ele nunca saiu do papel. O direito à adoção por casais homossexuais? Está fora de questão debatê-lo, nem na centro-direita, nem na centro-esquerda.A demorada implantação de uma lei que puna o crime de homofobia ilustra essa dificuldade de abordar a questão livrando-a de qualquer restrição ideológica e religiosa. Promovida por Concia com o apoio de Carfagna, ela parecia destinada a um percurso rápido. Mas no dia 18 de maio, para fúria de suas autoras, o texto foi rejeitado na comissão de justiça da Assembleia pelo partido da maioria (Povo da Liberdade), pelos centristas e pela Liga Norte. O argumento que mais se ouviu foi: punir a homofobia equivale a incentivar a homossexualidade. “A Itália já está atrasada no tema das liberdades públicas em geral”, explica Concia. “Mas a classe política prefere manter o país no obscurantismo a enfrentar serenamente as novas questões da sociedade.” “Embora tenha ficado adormecida por anos de berlusconismo, a sociedade está avançando, mas os políticos são totalmente conservadores”, explica Paolo Patane, diretor da Arcigay. “Designados pelos partidos e isolados de seus eleitores, eles são incapazes de ouvir as novas demandas. Já a esquerda não aproveitou a oportunidade para consolidar sua identidade propondo respostas inovadoras.”
Sem contar o papel do Vaticano, que na Itália se comporta como se estivesse em casa, lembrando com frequência de que ela precisa dos cânones da família e da moral católicas. “O argumento segundo o qual a Igreja faria de tudo para impedir o reconhecimento dos direitos dos homossexuais é um falso problema”, diz Concia. “O papa faz seu trabalho de papa, não há nada de surpreendente nisso. O problema é a covardia dos políticos.” O debate certamente não está fechado, entre a sociedade que aspira ter seus direitos novamente reconhecidos e uma classe dirigente que se recusa a concedê-los. “A Itália ainda é uma sociedade normativa”, explica o sociólogo Marzio Barbagli, “que tem tolerado mais as diferenças, mas que ainda não as aceita.” Enquanto isso não acontece, Cristian Friscina voltou a dirigir. Já é alguma coisa.

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