domingo, 24 de julho de 2011

POLÊMICA VEJA X FOLHA DE SP-Moderação na temática gay não põe a Globo no armário

Nos temas polêmicos, as novelas da Globo sempre testaram os limites da tolerância do espectador – e deram um passo atrás quando ele se mostrou chocado. Não é diferente em 'Insensato Coração'

Mariana Zylberkan/VEJA
Eduardo (Rodrigo Andrade) e Hugo (Marcos Damigo) assumem romance na novela Insensato Coração
Eduardo (Rodrigo Andrade) e Hugo (Marcos Damigo) assumem romance na novela Insensato Coração (TV Globo/divulgação)
Assunto que marcou a semana, a moderação da temática gay em Insensato Coração, de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, não é, como pode parecer à primeira vista, um retrocesso da Globo. É, antes, uma decisão em linha com o histórico das novelas da emissora, que sempre testaram os limites de tolerância do espectador, contribuindo para a pauta de debates públicos (confira lista abaixo), mas sempre recuaram quando o público começou a se escandalizar. Foi assim que, ao longo dos anos, a Globo abordou temas como divórcio, alcoolismo, emancipação da mulher, violência doméstica - e que vem retratando a homossexualidade em quase todas as novelas, sem precisar hastear a bandeira do arco-íris.A novela das oito – agora das nove – da Rede Globo não é apenas o produto de massa mais bem sucedido do país. As tramas exibidas nessa faixa são quase uma instituição cultural entre os brasileiros. Afinal, o horário nobre só recebe este nome porque coincide com um dos únicos períodos do dia em que a maioria das famílias consegue se reunir, no fim da jornada que costuma incluir trabalho e estudos. Ciente dessa penetração, e, é claro, das vantagens comerciais que ela lhe proporciona, a emissora procura agradar ao público amplo que a assiste, sem deixar de estimular discussões que tomam o país, com efeitos positivos para a sociedade, e se revertem em audiência, igualmente positiva, para o canal.
Atualmente, a temática gay tem acompanhado a sobremesa noturna dos telespectadores de Insensato Coração. Desta vez, porém, o debate sobre o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo – os personagens Eduardo (Rodrigo Andrade) e Hugo (Marcos Damigo) – extrapolou os limites domésticos, quando a Globo decidiu reduzir o espaço do romance homossexual na trama. Militantes do movimento gay chiaram publicamente, acusando a emissora de censura.
O discurso militante é inflamado, mas não preciso, já que nos últimos anos, personagens gays se tornaram quase onipresentes nos folhetins da Globo. E que, na própria Insensato Coração, mesmo com a redução do espaço dedicado à  temática, a homossexualidade é tratada de maneira inédita. Não há apenas o gay sofredor, vítima do preconceito da sociedade, ou o gay caricato, feito para protagonizar cenas de humor. Há gays diversos: há o advogado recatado da ex-reality show Natalie Lamour (Deborah Secco), o professor universitário bem-resolvido (o já citado Hugo), o garçom espevitado que paquera estrangeiros em Ipanema (Chicão, vivido por Wendell Bendelack), o promoter que adota todas as gírias do mundo gay (Roni, de Leonardo Miggiorin) e, finalmente, o executivo enrustido que se esforça para sair do armário (o também já mencionado Eduardo).Essa diversidade representa uma mudança significativa na forma como a TV costuma retratar homossexuais. Mas soou exagerado para a emissora mostrar cenas em que o casal Eduardo e Hugo sai de um motel – um dos trechos do roteiro que tiveram sua veiculação vetada pela emissora. Ora, falar sobre o casamento entre gays ainda pode ser algo incômodo nas salas de estar no Brasil. Se a máxima de que as novelas espelham a sociedade é verdadeira, Insensato Coração simplesmente cumpriu o papel do folhetim.

Em nota, movimento gay protesta contra a TV Globo

Militantes querem que Globo mantenha trama homossexual em 'Insensato Coração'

Mariana Zylberkan/VEJA
Hugo (Marcos Damigo) e Eduardo (Rodrigo Andradde) assumem romance em Insensato Coração
Hugo (Marcos Damigo) e Eduardo (Rodrigo Andradde) assumem romance em Insensato Coração (TV Globo/João Miguel Júnior)
A comunidade gay se mobilizou nesta terça-feira por causa de uma decisão envolvendo a novela Insensato Coração. A bandeira com as cores do arco-íris tremulou para protestar contra a decisão da TV Globo em limitar o espaço concedido na trama ao casal homossexual Eduardo (Rodrigo Andradde) e Hugo (Marcos Damigo). O diretor-geral de entretenimento da emissora, Manoel Martins, deu ordem expressa aos autores Gilberto Braga e Ricardo Linhares para esfriar completamente o caso de amor a partir dos próximos capítulos. A emissora se limitou a explicar que a televisão é um veículo de comunicação de massa e, por isso, deve contemplar todos seus públicos.Em resposta, a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) emitiu um ofício para exigir a liberdade artística dos autores e a continuidade do romance entre Eduardo e Hugo. "A novela quase entrou para a história como a trama mais homoafetiva dos últimos tempos. Personagem gay sempre é estereotipado nas novelas, ou aparece adoentado, ou está preso, o que não aconteceu dessa vez ", lamenta Toni Reis, presidente da ABGLT.O militante lembra de uma situação semelhante vista pelo público em 1998, durante a exibição da novela Torre de Babel. Diante da repercussão do casal formado por duas mulheres – Rafaela (Christiane Torloni) e Leila (Silvia Pfeifer) –, o autor Silvio de Abreu foi obrigado a mudar a trama e matar as duas personagens numa explosão dentro do shopping center. "Só espero que não joguem um avião da Noar (empresa de linhas aéreas que está sendo investigada pela Polícia Federal após acidente com bimotor que matou 16 pessoas no Recife no dia 13 de julho) em cima de Eduardo e Hugo e os matem", torce Reis.
A orientação da emissora vai contra a própria realidade vivida pelo país atualmente. Desde o dia 6 de maio, o Brasil é a 34ª nação a tornar legal a união estável entre pessoas do mesmo sexo. "A novela deveria retratar a sociedade em que está inserida. Adoraria ver o casal gay adotar uma criança em Insensato Coração", sonha Reis.

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