quinta-feira, 3 de março de 2011

Religião traz explicações "preguiçosas", diz biólogo evolucionista

DER SPIEGEL

A evolução é um fato. Isso, ao menos, é o que o biólogo evolucionista Richard Dawkins argumenta em seu novo livro, “O Maior Espetáculo da Terra”, que acabou de ser publicado em alemão. A “Spiegel Online” falou com Dawkins sobre as falhas da religião, a grandeza da realidade e o Gene de Deus.
Spiegel Online: Professor Dawkins, seu livro “O Maior Espetáculo da Terra” acabou de ser publicado na Alemanha. O título alemão, entretanto, é “A Mentira da Criação: Por que Darwin Está Certo”. O senhor está feliz com ele?
Dawkins: Não muito, porque parece pender para a direção da negatividade. O título original é positivo. É edificante, deve ser exultante, enaltecendo a beleza da vida e a beleza do entendimento da vida, enquanto o título alemão é crítico e meio que agressivo. Esse é o livro e você o encontrará lá. Mas o título cria uma ênfase diferente.
Spiegel Online: Que ênfase o senhor tinha em mente para o livro?
Dawkins: Uma visão positiva, quase romântica da vida como algo que é belo e explicável, e bela porque é explicável. Mas também há um lado negativo. É uma tentativa de corrigir a concepção errada das pessoas, especialmente nos Estados Unidos, mas também em outras partes do mundo, que se tornaram influenciadas pela religião fundamentalista a pensarem que toda a vida pode e deve ser explicada como sendo planejada. Eu considero isso uma explicação preguiçosa e de pouca ajuda, assim como falsa.
Spiegel Online: O senhor nunca passou por uma fase religiosa em sua vida?
Dawkins: É claro. Eu já fui criança, não fui?
Spiegel Online: O senhor acha que a religião é algo que devemos deixar para trás ao entrarmos na idade adulta?
Dawkins: Você sabe o que São Paulo disse: Quando eu era menino, pensava como menino; mas, quando me tornei homem, acabei com as coisas de menino.
Spiegel Online: O geneticista americano Dean Hamer postulou a hipótese do Gene de Deus, propondo que os seres humanos são geneticamente configurados para a fé religiosa.
Dawkins: Eu prefiro dizer que temos muitas predisposições genéticas para muitos atributos psicológicos, o que, sob as circunstâncias certas, resultam em religião. Mas também penso em coisas como a predisposição em ser obediente à autoridade, o que pode ser útil sob certas circunstâncias. Ou a predisposição de ter medo da morte ou, quando assustado, correr na direção de uma figura paterna. Todas são predisposições psicológicas separadas que, sob as circunstâncias culturais certas, acabam levando uma pessoa à religião, seja qual for a religião da criação cultural da pessoa. Eu não chamaria isso de Gene de Deus.
Spiegel Online: A religião não foi bem-sucedida no sentido evolucionário?
Dawkins: O pensamento de que as sociedades humanas ganharam força com o meme (conceitos que se tornam norma e são repetidos) religioso em sua competição com as outras é verdade até certo ponto. Mas parece mais como uma luta ecológica: me lembra a substituição do esquilo vermelho pelo esquilo cinzento no Reino Unido. Não é um processo de seleção natural, mas sim uma sucessão ecológica. Assim, quando uma tribo possui um deus beligerante, quando os jovens são criados com o pensamento de que seu destino é sair e lutar como guerreiros, e que a morte como mártir conduz diretamente ao céu, você vê um conjunto de memes poderosos e que se reforçam mutuamente em ação. Se a tribo rival tem um deus pacífico que acredita em dar a outra face, ela poderá não prevalecer.
Spiegel Online: Mas seguir uma religião que não promove as chances de sobrevivência parece contradizer a lógica evolucionária...
Dawkins: Sim, claramente há um conflito entre o meme e o gene de sobrevivência. Nós estamos familiarizados com esses conflitos. Eles às vezes funcionam de um modo, às vezes de outro.
Spiegel Online: Mas a religião nem sempre é agressiva, ela também tem um lado suave. Ela oferece conforto e consolo. Em um ponto em seu livro, o senhor até mesmo cita um bispo em defesa de sua tese.
Dawkins: “O Maior Espetáculo da Terra” é um livro contra o criacionismo. De modo que não me importo em usar o argumento de um bispo que também é contrário ao criacionismo –e pelo bom motivo de que ele dá à religião uma má reputação. Eu não me importo em fazer uma aliança temporária contra um inimigo comum.
Spiegel Online: Parece improvável que um verdadeiro criacionista leria seu novo livro, muito menos seria convertido em um evolucionista. Além disso, seus leitores habituais não precisam ser convencidos de que a evolução é um fato. Para quem o senhor escreveu “O Maior Espetáculo da Terra”?
Dawkins: Principalmente para as pessoas sentadas em cima do muro. É supostamente sobre a evidência da evolução. Eu não penso seriamente ser capaz de mudar a mente de fundamentalistas raivosos. Eles não leriam de qualquer forma. Mas suspeito que existam muitas milhares de pessoas que estariam genuinamente interessadas. Pessoas que não precisam de fato mudar de ideia, mas apenas receberem um empurrãozinho para um lado ou outro do muro, porque nunca pensaram seriamente a respeito do assunto.
Spiegel Online: O senhor não teme que algumas dessas pessoas possam ser alienadas devido à linguagem às vezes forte do livro?
Dawkins: De que linguagem forte você fala?
Spiegel Online: O senhor chama seus oponentes de “negadores do Holocausto”, “ignorantes”, “ridículos” e “iludidos a ponto da perversidade”.
Dawkins: Minha suspeita é de que mais pessoas considerarão isso divertido. Quando leio um escritor ridicularizando algum idiota, eu acho divertido. Alguns podem até se chatear e eu os perderei nestas passagens. Mas suspeito que o número de pessoas que acharão graça será maior.
Spiegel Online: Em seu livro, o senhor argumenta que a teoria da evolução está no mesmo nível de um teorema matemático. O senhor não é tão dogmático quanto os fundamentalistas religiosos entre seus oponentes, como afirmam alguns de seus críticos?
Dawkins: Houve um tempo em que as pessoas pensavam que o mundo era plano. Então se tornou uma hipótese que o Sol era o centro do universo, e depois hipótese de que nem mesmo o Sol era o centro do universo. No sentido ordinário da palavra “fato”, está o fato de que a Terra orbita o Sol e o Sol faz parte da galáxia Via Láctea. Nunca há uma linha rápida e dura quando algo deixa de ser hipótese e passa a ser fato. Você percebe isso olhando para trás, que algo se tornou um fato. Os filósofos da ciência, é claro, dirão que nada jamais se torna um fato real, que tudo é apenas hipótese que nunca pode ser adequadamente comprovada, e que todos podemos despertar algum dia e descobrir que tudo era apenas um sonho. Mas do modo em que o público em geral usa a palavra fato, a evolução é um.
Spiegel Online: Sem nenhum ponto de interrogação? A teoria da evolução ainda não está aberta a modificação?
Dawkins: Sim, é claro! Certamente há uma disputa genuína, por exemplo, sobre quanto da evolução é movida pela seleção natural e quanto é movida pelo acaso. É uma discussão genuinamente aberta, aberta a novas evidências.
Spiegel Online: O senhor vê uma possibilidade de que a teoria da evolução, como a vemos agora, se transforme em um elemento de um sistema mais amplo de pensamento se, por exemplo, nós descobrirmos vida em exoplanetas?
Dawkins: Há, é claro, precedência para ideias bem estabelecidas na ciência serem englobadas por um esquema maior. Eu estou muito interessado na possibilidade de vida extraterrestre. Há muitas perguntas sobre as quais devemos pensar mais: quanto do que sabemos sobre a vida neste planeta tem que ser verdadeira, porque não há outro modo de existir vida? E quanto é apenas fato local, paroquial, sobre a vida neste planeta?
Spiegel Online: O que o senhor quer dizer?
Dawkins: Não seria muito ousado alegar que toda a vida precisa ser baseada em DNA? Mas talvez poderíamos dizer que toda a forma de vida precisa ser baseada em algo suficientemente parecido com DNA. Neste planeta, a função de replicação é exercida pelo DNA, a função executiva por proteínas, elas são rigidamente separadas. Isso precisaria ser verdadeiro, universal? Ou podem existir outras formas de vida, nas quais uma molécula exerce ambas? Essas são perguntas abertas, porque até o momento só temos uma amostra de vida.
Spiegel Online: Sr. Dawkins, como o senhor gostaria de ser lembrado daqui 60 anos? Como o cientista que deixou seu impacto com livros como “O Gene Egoísta”? Ou como um crítico aberto e zeloso da religião?
Dawkins: Ambos, na verdade. Eu não os vejo separados um do outro. Mas eu lamentaria se o ataque à religião ofuscasse o que eu espero ter contribuído à ciência. Eu acho que seria uma pena. Mas não vejo uma contradição entre os dois aspectos. Eu acho que estão ligados.
Spiegel Online: Qual será seu próximo trabalho?
Dawkins: Eu estou na metade de um livro infantil que se chamará “The Magic of Reality” (a mágica da realidade). Cada capítulo é uma pergunta do tipo: O que é um terremoto? O que é um arco-íris? O que é o sol? Cada capítulo começa com uma série de mitos que aparentemente responde essas perguntas, e então eu rebato com a explicação sobre a verdadeira natureza das coisas. Há algo muito barato na magia no sentido sobrenatural, como transformar um sapo em um príncipe com uma varinha mágica. A realidade tem uma mágica poética própria muito maior, que eu espero ser capaz de transmitir.

Entrevista conduzida por Markus Becker e Frank Patalong/Tradução: George El Khouri Andolfato/UOL

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