terça-feira, 31 de maio de 2011

Corrupção em Campinas-"Só se aprova loteamento em Campinas com pagamento de propina", diz empresário

Ilário Bocalleto diz que primeira-dama intermediou encontro com Ricardo Candia

30/05/2011 - 19:10
EPTV
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Testemunha no processo que investiga o pagamento de propina e fraudes em contratos públicos em Campinas, o empresário e empreendedor Ilário Bocalleto afirma que a primeira-dama e chefe de Gabinete de Campinas, Rosely Nassim Jorge Santos, mentiu quando disse em entrevista que desconhecia o ex-diretor de Planejamento e Urbanismo Ricardo Candia. Ainda segundo o empresário, empreendimentos imobiliários em Campinas só são liberados mediante pagamento de propina, cobrada à titulo de comissão e dividida entre os envolvidos no esquema. Ao tentar resolver um impasse na questão de Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU), Bocaletto procurou diretamente a primeira-dama do município, que teria recomendado um encontro com Ricardo Candia. A recomendação foi registrada em um bilhete de próprio punho.
Bocalleto procurou o Ministério Público (MP) após a declaração da primeira-dama durante entrevista no dia 29 de abril à EPTV , onde Rosely Nassim Santos diz que conheceu o ex-diretor de Planejamento e Urbanismo apenas no período em que ele trabalhou na prefeitura. Ilário Bocaletto afirma que a informação é improcedente. "Eu me surpreendi, porque isso não é verdade", disse.O empreendedor afirma que conversou com a primeira-dama no gabinete a menos de dois anos, quando tentava resolver o impasse de pagamento de IPTU nas terras na Cidade Universitária, no distrito de Barão Geraldo, que se arrasta por mais de três anos. "Cheguei até a primeira-dama porque eu fiquei sabendo que quem resolvia os problemas de IPTU e tudo o que acontece em Campinas, seria a primeira-dama, daí procurei ela. Ela pediu para que eu fosse falar com ele (Candia), me escreveu um bilhete para resolver o problema”, explica o empresário. Ricardo Candia foi uma das 11 pessoas presas por determinação da Justiça no último dia 20 em uma operação da Corregedoria da Polícia Civil. Ele conseguiu a liberdade sete dias depois da prisão, quando a Justiça concedeu um habeas corpus.Até esta segunda-feira (30), Bocaletto não conseguiu resposta da Prefeitura sobre os questionamentos dos valores do IPTU, também não teve a aprovação para lotear a área. O empresário afirma que dependendo dos empreendimentos ocorre o valor de propina de 5% a 10% do valor do lote. "É quase impossível aprovar loteamentos em Campinas. Só se aprova loteamentos pagando propina, é quase impossível. Por isso que só se aprova loteamento hoje em Campinas para classe média e alto padrão, e não aprova o loteamento popular que é o que mais precisa, que é o que o povo mais precisa. Isso nós não temos incentivo porque não fecha a nossa conta de empreendedor ou loteador pagando um valor alto de propina para aprovar, a gente não consegue fazer loteamento para quem precisa", afirma.
“Venda de Facilidades”
O empresário disse que tentou procurar a prefeitura por meio de advogados, agendamento de reuniões, entre outros. "Cria-se uma dificuldade para gente procurar alguém de alto escalão para depois vender as facilidades, é assim que funciona em Campinas e não só aqui, quase todas as cidades da região metropolitana", disse o empreendedor.
De acordo com a advogada que acompanhou todo o processo Ana Cristina Wruagt, a partir da decisão de aprovar apenas o desconto para um dos pedidos que começaram as dificuldades para aprovar outros dois. “Já eram áreas regularizadas e eu percebi a dificuldade na aprovação de conseguir a diminuição do débito depois que saiu a decisão de uma das áreas que saiu favorável e as outras duas por serem idênticas não saíram favoráveis. Após esta decisão eu não conseguia mais conversar com a pessoa responsável na prefeitura para verificar o que tinha acontecido", afirma Ana Cristina.Os encontros com Candia ocorreram quatro vezes em cafés, padaria e em shopping na cidade. Segundo Bocaletto, eram encontros rápidos de no máximo dez minutos. "Nos encontramos em um café e conversamos, chegamos falar de valores, mas o negócio não vai, não anda, porque acabou dizendo que tinha que pagar um valor adiantado e eu não concordei. Agora estou tentando agendar uma reunião com o Diretor de Finanças e não consigo, simplesmente ele foge”, explica o empresário.
Candia chegou a explicar para o empresário como funcionaria o esquema de pagamento de propina no caso, que deveria ser feito em dinheiro, o que ex-diretor de Planejamento chamou em negócios em “verde”. "Do valor do IPTU seria 15% do benefício de desconto, achei muito alto porque tem uma lei e está protocolado o pedido para o desconto. O valor seria uma comissão que eles cobram, que seria dividido entre eles. Ele citou o nome de doutora, mas eu não sei o que ele quis dizer, se é ela (Rosely) ou não", afirma.Os valores para pagamento de propina sempre eram passados por bilhetes e nunca verbalmente. Apesar de não fazer mais parte da prefeitura, Candia garantiu para o empresário resolver o problema. "Não se fala muito, se fala mais escrevendo em um papel o valor, depois rasga esse papel e coloca no bolso. Única coisa que prova é o bilhete da primeira-dama para procurar o Ricardo”, diz Bocaletto. Depois de discordar com o pedido de dinheiro, ex-diretor de Planejamento não procurou mais o empresário.
O advogado de Ricardo Candia Ralph Tortima Filho, disse que não vai comentar as denúncias e que filho afirma que o cliente está a disposição do Ministério Público (MP) e se necessário pode passar por uma acareação com o empresário. Sobre o assunto, primeira-dama foi procurada, mas não retornou as ligações.

Citada como chefe de esquema de corrupção, primeira-dama sai em férias

Rosely Nassim Santos ficará 15 dias fora do gabinete no Palácio dos Jequitibás

Citada como coordenadora de um esquema de fraudes em contratos públicos em Campinas investigado pelo Ministério Público, a primeira-dama e chefe de Gabinete da prefeitura, Rosely Nassim Jorge Santos, está em férias a partir desta segunda-feira (30). Ela será substituída pelo diretor de Gabinete Orlando Maroca Filho. Segundo o Departamento de Comunicação (Decom), o descanso estava programado e não está relacionado ao escândalo que atingiu a administração municipal há dez dias, quando 20 pessoas tiveram a prisão temporária decretada pela Justiça, entre elas o vice-prefeito Demétrio Vilagra, o ex-coordenador de Comunicação, Francisco de Lagos, e o ex-secretário de Segurança Pública, Carlos Henrique Pinto.Um relatório entregue de forma anônima na noite do dia 22 de maio à EPTV mostra como um dos maiores esquemas de fraude já visto na história de Campinas foi montado. Segundo as investigações do MP, as negociações eram feitas no Palácio dos Jequitibás, sede do Poder Administrativo da cidade. O material apresenta informações detalhadas de como tudo acontecia nos bastidores do poder público, envolvendo diretamente a primeira-dama.
As denúncias de fraudes foram confirmadas em janeiro deste ano, pelo ex-presidente da Sanasa, Luiz Augusto de Aquino. Engenheiro eletrônico, Aquino começou a fazer parte do episódio quando assumiu a presidência da empresa em janeiro de 2005. Ele ficou no cargo até julho de 2008. O esquema, segundo o ex-presidente, começou no primeiro ano de sua gestão. Para não ser preso, Aquino se beneficiou da delação premiada, programa que permite a ele não ser preso durante as investigações.Segundo a versão dele, a coordenação geral do esquema ficava com a esposa do prefeito de Campinas e também chefe de Gabinete, Rosely Nassim Jorge Santos. O diretor técnico da Sanasa, Aurélio Cance Junior, era responsável pela arrecadação de dinheiro de obras. Luiz de Aquino cuidava do valor que entrava nos contratos de serviços prestados à Sanasa. Já os diretores comercial José Elias Marin e administrativo financeiro Luiz Landes da Silva Pereira não participavam da arrecadação, mas evitavam qualquer impasse no negócio. Meses depois do início do esquema, Landes deixou a Sanasa, e foi substituído por Marcelo de Figueiredo, que além de participar do esquema, também recebia o dinheiro.De acordo com o juiz da 3ª Vara Criminal de Campinas, Nelson Augusto Bernardes, Rosely Santos não teve a prisão temporária decretada porque está protegida por um habeas corpus preventivo, obtido no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ), semanas antes da megaoperação da Corregedoria da Polícia Civil.

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