terça-feira, 19 de julho de 2011

Shopping e drag queen divulgam nota esclarecendo o caso de discriminação

Antes de divulgar as notas de esclarecimento tanto da drag Cindy Butterfly assim como do Shopping Frei Caneca sobre o caso de discriminação, gostaria que os leitores refletissem um pouco do porque se tem o hábito de transformar as vítimas em culpadas. É assim com a mulher estuprada - "aconteceu porque quis, permitiu". É assim com o gay que apanha na rua  - "com certeza flertou o machão". É assim com o negro preso sem provas - "a polícia o prendeu porque deu mole, se comportou de maneira estranha". É assim com quem ousa se vestir da maneira que bem entende - "essa roupa não era apropriada para o local e por isso recebeu assédio". É assim se você é minoria nesse país.Isso eu escrevo não para o shopping nem para a drag Cindy, mas para muitos dos comentários que fizeram nesse blog sobre o caso, caindo em uma estranha esfera moral cheia de amoralidades.
Abaixo, o Blogay publica as notas de esclarecimento:
Shopping Frei Caneca -
O Shopping Frei Caneca esclarece que a abordagem feita a Sra. Cindy Butterfly, no último dia 16 de julho, se refere exclusivamente à filmagem do empreendimento durante cobertura jornalística de um evento de moda. O Frei Caneca reforça ainda que, em respeito à imagem de seus frequentadores, é necessário um pedido prévio de autorização para filmagens nos corredores do mall.
A iniciativa se aplica a todos os públicos, inclusive aos órgãos de imprensa. É importante ressaltar que a Sra. Cindy Butterfly desenvolveu o seu trabalho normalmente no local do evento, ocorrido dentro do Centro de Convenções Frei Caneca. A filmagem foi autorizada pela organização do Fashion Week Plus Size. Desde o início de sua operação, o shopping posiciona-se como um empreendimento voltado à comunidade em geral, sem qualquer tipo de orientação sexual ou discriminação (social, racial, religiosa, política). O Frei Caneca trabalha continuamente para oferecer aos frequentadores um local de convivência agradável, seguro e respeitoso, sem foco em um público específico.
Cindy Butterfly -
“Mais importante do que aquilo que se pode mostrar,
é aquilo que o outro pode ver”

Caros amigos, e todos que acompanham meu trabalho...
Realmente eu fico espantado com o poder da internet (falo no masculino, pois estou, momentaneamente, deixando a personagem Cindy Butterfly de lado). Incrível como um vídeo que fiz, já cansado, depois de uma tarde e início de noite cobrindo um evento de moda - o qual fui convidado pelos seus organizadores - teve tanta repercussão.Tratava-se do “Fashion Weekend Plus Size”. Um evento, já na quarta edição, que coloca em destaque roupas, grifes, modelos e todo um universo de mulheres que vestem roupas GG. Mulheres que, no dia a dia, já sofrem o preconceito de estar fora de um padrão de estética corporal impostas por uma sociedade, por uma cultura. Desta forma, eu que já sofri algumas vezes com o preconceito, fiquei muito feliz em ser convidado para tal evento e de poder registrar as mesmas ansiedades e desejos de meninas e mulheres que querem mostrar seu valor, sua beleza, seu carisma.Confesso que desconhecia a extensão do evento e só pude ter uma real noção quando lá cheguei. Por esta razão, preferi me aprontar em casa mesmo e chegar pronto ao local para fazer o meu trabalho. Para tal, fui acompanhado de meu amigo que foi tudo pra mim naquele dia: câmera, carregador de mala, porta carteira e celular e, também, testemunha do caso que trato no vídeo em questão.Baseado na minha crença (por conta de ter inúmeras amigas gordinhas e saber o quanto sofrem no seu dia a dia) resolvi prestar uma homenagem a elas e dizer o quanto todas ali eram maravilhosas e, por esta razão, acabei escolhendo um figurino clássico: a Mulher Maravilha. Ao mesmo tempo que se tratava de uma homenagem, eram também uma crítica aos padrões estipulados por nossa sociedade. E com isto em mente, me dirigi ao Shopping Frei Caneca, onde fica o Centro de Convenções, que abrigaria o Fashion Weekend Plus Size.

Ao chegar, entrei pela porta principal do shopping. Subi um lance de escadas e assim que encontrei uma dupla de seguranças, para a qual questionei onde era o local do evento. Assim que recebi a informação de que era só subir mais dois lances de escada para chegar, foi o que prontamente fiz, parando na esquina da escada rolando da praça de alimentação, onde existe um lugar onde vende café, salgado, refrigerante e parei para comprar uma bebida para mim. Neste instante, um dos seguranças se aproximou de mim e disse que eu não poderia transitar pelo shopping “naqueles trajes”, o de Mulher Maravilha. Prontamente questionei o porquê e ele afirmou se tratar de regras do shopping. Justifiquei para ele que estava ali para gravar uma reportagem e que já estava me dirigindo para o quarto andar onde fica o espaço para a realização dos eventos. Ele se afastou, falou algo no rádio, eu paguei meu refrigerante e continuei subindo rumo ao desfile. Dois seguranças, nos acompanharam à certa distância, até que finalmente subimos a última escada e lá pude fazer o que tinha me proposto a fazer naquele dia.Não posso dizer que o segurança me abordou de uma forma grosseira, muito menos desrespeitosa. Estaria mentindo se assim o fizesse. E não posso, também, dizer que eles me pediram para me retirar do shopping. Isso não aconteceu e também nunca disse nenhuma dessas coisas. Mas, ele não me abordou por conta da minha câmera e sim, por conta da minha roupa. No entanto, achei profundamente estranha tal atitude (a de me abordarem e dizerem que não poderia estar ali no shopping daquela forma) e foi isto que desejei questionar quando produzi o vídeo, já em minha residência.O vídeo acabou parando no blog do jornalista Vitor Angelo, que escreve para o blogay, do jornal Folha de São Paulo e acabou repercutindo de forma que até eu me assustei. Por dois motivos: primeiro, pelo número de pessoas que viram e acabaram comentando e, segundo, pelo teor dos comentários em si de pessoas que utilizam-se das mais diversas formas (pejorativas, inclusive) para criticar negativamente minha postura.Como disse, cheguei ao shopping e subi diretamente ao local do evento. Não fiquei circulando pelo local como podem pensar alguns. Apenas passei pelos corredores necessários para a minha entrada e saída do estabelecimento. Parando unicamente para comprar um refrigerante na entrada e um café, na saída. Aliás, no café, acabei ficando mais tempo, onde fui abordado de maneira gentil e graciosa por algumas pessoas que estavam no local que até pediram para tirar fotos comigo e um grupo de senhoras que elogiaram minha roupa e minha atitude alegre com elas com elas, o mesmo ocorreu com os funcionários do café.Assim sendo, minha atitude jamais foi ofender alguém.Ainda assim achei muito estranho o fato de eu ter sido abordado por estar fantasiado de Mulher Maravilha e depois de ter dito que estava ali para fazer uma reportagem, a postura dos seguranças ter mudado um pouco. Me pergunto: se eu fosse um simples cidadão teria sido posto para fora?Antes de tudo, o trabalho de uma drag queen ou de um ator transformista é uma manifestação de arte e, no meu entendimento, é livre e merece ser respeitado. Adiante, além de estar ali para cobrir o evento, também estava como consumidor e como tal, também devo ser respeitado.Alguém alegou no blog do Vitor Angelo que o problema pode estar no fato de a roupa da mulher maravilha ser uma calcinha. Primeiro que a roupa da personagem é esta e não se tem muito o que fazer (apesar de eu estar com meia por baixo da fantasia e não ter nenhuma parte do meu corpo aparecendo além de colo e pernas), segundo porque uma calcinha pode estar estampada na vitrine e no interior de qualquer loja que venda roupas íntimas femininas (ou masculinhas, no caso das cuecas) e terceiro que, além de tudo, tinha minha capa que acobertava ainda mais a fantasia. Mas meu pergunto se, num país como o nosso, típico exportador da cultura da bunda, uma tanquinha nada sensual da mulher maravilha, é tão agressivo assim???
Enfim, o fato é que não posso afirmar qual o real motivo pelo qual fui abordado no shopping. Se por ser drag queen, se por ser homossexual, se por estar fantasiado... Não posso afirmar categoricamente que tenha se tratado de homofobia e não é o que eu afirmo no vídeo. No entanto, o shopping tem um histórico não muito recente de ações no mínimo controversas em relação aos homossexuais. Mas, mais uma vez, não posso garantir que tenha se tratado de um caso específico de homofobia. Desta forma, estou derrubando a tese de alguns que estou usando isso para poder me beneficiar de uma lei que, aliás, nem existe ainda...Afirmo, finalmente, que minha intenção com o vídeo era de chamar a atenção sim em relação à administração do shopping e, principalmente, por ser eu uma figura pública e que luta declaradamente contra qualquer tipo de preconceito, não poderia deixar isso passar em branco (seja preconceito por conta de sexualidade, vestimenta ou qualquer outro).
Só acho estranho que, num país onde os verdadeiros donos da terra vivam nus, num país onde a principal festa popular é uma verdadeira valorização do corpo, e da inversão de papéis... Uma Wonder Woman ainda seja tanto tabu.

Escrito por Vitor Angelo
As roupas dizem muito sobre quem as veste. Essa máxima todo fashionista ou quem entende os códigos de moda sabe muito bem.  O vestuário indica a classe social, a sua tribo urbana, falam sobre gênero e também sobre individualidades.
Dominar essas regras é a melhor maneira para poder questionar, quebrar ou enfatizar imagens. As drags queens fazem isso todo o momento, ao ressaltar o quanto é caricato pensar a roupa como identificação de gênero e, em sua radicalidade - como  uma espécie de clown/bobo da corte -, a fragilidade e o ridículo da crença desses códigos como imutáveis (os fashionistas e conhecedores de moda também sabem disso).
                                                                                 Divulgação/ A Capa

Talvez por medo dessas questões que um segurança de um shopping center em São Paulo, famoso pela forte presença de homossexuais em seus corredores, resolveu impedir que uma drag circulasse na praça de alimentação do edifício devido aos seus trajes - a abusada foi de Mulher Maravilha.
Só que ele não sabia que estava mexendo com Cindy Butterfly, militante e colunista do site gay A Capa que o questionou. Quando ela disse a palavra mágica: “eu sou da imprensa”, tudo mudou segundo seu relato. Isto é, se não fosse "da imprensa", ela não poderia andar montada pelo shopping?
Leia abaixo o que Cindy escreveu sobre o ocorrido. O Blogay entrou em contato com a administração e a assessoria do shopping para obter alguma declaração do estabelecimento e foi informado que só na segunda-feira, 18, em horário comercial, eles poderiam dar alguma posição sobre o ocorrido
Sábado, dia 16 de julho, fui cobrir um evento de moda no Salão de Convenções do Shopping Frei Caneca (inclusive, patrocinado pelo próprio shopping).
Numa grande homenagem às mulheres, me vesti de Mulher Maravilha e fui fazer o meu trabalho. Entrando no shopping, já no piso da praça de alimentação, um segurança me abordou e disse que eu não poderia ficar no shopping com aqueles trajes.Indignada, pois estava fazendo meu trabalho (e não tenho culpa que o Salão de Convenções é dentro do referido shopping, o mesmo que já criou polêmica por conta de beijo gay e segurança na porta dos banheiros masculinos), questionei o porquê. Ele simplesmente disse que eram normas do estabelecimento. O curioso  foi que bastou eu falar que era repórter e estava fazendo uma matéria que tudo mudou. Ainda assim, eles ficaram seguindo eu e meu câmera como se fossemos, sei lá, bandidos???
Resolvi gravar este vídeo, já em casa, pois achei a atitude um verdadeiro absurdo e me sinto na obrigação de falar o que aconteceu, afinal, aquele shopping sobrevive do aqué [ significa dinheiro , no pajubá] das gays que o frequentam.

Escrito por Vitor Angelo /UOL

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